A panaceia da Física Quântica

         As propriedades bizarras da Física Quântica, além de servir aos propósitos puramente científicos de explicar o mundo à nossa volta, constituem uma fonte inesgotável de temas de ficção científica, de receitas de auto-ajuda e de explicações para o misticismo de certas crenças e filosofias.

         Essa euforia com a Física Moderna é uma reação natural da sociedade quando se vê diante de uma nova teoria com o poder de explicar os fenômenos à nossa volta, de uma maneira que nenhuma outra teoria o fazia. Esse mesmo tipo de reação aconteceu muitas outras vezes no passado. É típico da nossa condição de humanos e é a mola propulsora do nosso progresso científico e tecnológico.

         No caso da Física Quântica, no entanto, há um elemento que não se encaixa com os casos anteriores. Enquanto que Galileu, Newton e Einstein, entre outros, desenvolveram teorias que explicavam fenômenos do quotidiano – é certo que as teorias de Einstein se referem a nuances de geometrias espaciais, acelerações e velocidades que não percebemos no quotidiano; mas, ainda assim, podemos facilmente imaginá-las – a Física Quântica se aplica ao comportamento das partículas microscópicas que estão num mundo inacessível ao cidadão comum. Seus resultados não se aplicam diretamente aos fenômenos do dia-a-dia, ou, pelo menos, não conseguimos perceber facilmente como isso acontece. Então, por que a euforia?

         Acho que ela é provocada, em grande parte, pelos próprios cientistas que, com seu entusiasmo, extrapolam a sua função de pesquisar. Os resultados conseguidos até agora são tão extraordinários e surpreendentes que dão margem a especulações de todo tipo: teletransporte, interferência da mente na ocorrência dos eventos, manifestação da consciência, universos paralelos e muitos outros, para delírio dos escritores de ficção científica. Não tenho dúvida de que os próprios cientistas contribuíram, com suas interpretações duvidosas do significado da teoria, para estimular essas especulações que, de outra forma, o leigo não teria como fazê-lo.

         Não vejo problema nessa euforia, só não acredito que ela seja justificada. Acho que o alcance da Física Quântica está sendo puxado além do seu limite, num momento em que ela ainda é uma teoria que poucos cientistas dominam. O astrofísico Adam Frank, do blog 13.7, dá uma opinião sensata quando fala sobre Budismo e Mecânica Quântica:

A Mecânica Quântica não diz que o Budismo é verdadeiro. Ela não diz nada. É um cálculo que está sujeito a muitas interpretações, desde as mais mundanas (abordagens estatísticas) até as mais ousadas (múltiplos universos). Por mais instigante que seja encontrar a prova de que a mente afeta o comportamento subatômico, tal prova simplesmente não existe”.

         Mas muitos cientistas escrevem livros como se essa prova existisse (ou como se ela não fosse necessária). No artigo “O misticismo e a Física Quântica” cito alguns exemplos. É de fato muito tentador extrapolar para os eventos quotidianos o que acontece no nível microscópico. Infelizmente, o princípio da incerteza, a função de onda e tudo o mais que caracteriza a Física Quântica, e que bem descrevem o mundo microscópico, não podem ser transportados diretamente para o mundo macroscópico onde os eventos são muito mais complexos do que a simples passagem de um fóton por uma fenda.

         Entre o microscópico e o macroscópico há uma distância muito grande. Sabemos, por exemplo, que no mundo microscópico os espaços vazios são gigantescamente maiores do que os espaços preenchidos por matéria. No entanto, quando olhamos e tocamos um objeto percebemos algo sólido que nem de longe sugere os espaços vazios entre elétrons e núcleos dos átomos que formam aquele objeto. Conseguimos, também, medir os estados de excitação dos neurônios em nosso cérebro, os chamados padrões neurais, mas não conseguimos associar tais padrões ao que se passa em nossa mente.

         Na minha opinião, utilizar a Física Quântica para explicar como a mente pode interferir nos fenômenos do dia-a-dia é uma ideia tão implausível quanto à de construir um dispositivo que alinhe os campos e os vazios entre as partículas que constituem dois objetos, de modo que um possa atravessar o outro. Ou, então, construir um dispositivo que revele os pensamentos de uma pessoa pela simples análise dos seus padrões neurais.

         Tenho certeza que as mentes brilhantes que deram corpo à teoria da Física Quântica não aprovariam a transformação dessa bela teoria em uma panaceia. Que isso tudo fique restrito às histórias de ficção científica para o nosso deleite.

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6 comentários sobre “A panaceia da Física Quântica

  1. Caco, que bom ler e poder refletir sobre suas observações. Concordo com você e concluo que de prático a ciência, neste caso, tem sido apenas uma grande teoria. Porém, pensemos que tudo provém da mesma energia da grande explosão. Ainda temos, até que se prove o contrário, muito tempo para resolver as questões práticas que de fato farão diferença em nossas vidas.

  2. A física quântica bagunça o nosso senso comum: se há 2 caminhos pra uma particula passar, ela vai passar pelos 2 ao mesmo tempo!? É impossivel saber a posicao e velocidade da particula ao mesmo tempo!? E por ai vai…

    Pelos seus postulados serem tão peculiares, acredito que isso abriu margem a uma avenida esotérica.

    Mas onde a navalha de Ockham vai cortar?

    Acho que a avenida se abriu com o trabalho “cientifico” (entre aspas porque nao sei mesmo se foi ou não cientifico) do japonês Masaru Emoto, que fotografou as moleculas de agua com músicas, pensamentos e etc, afirmando que os cristais de água ao se congelar teriam forma diferentes em razão disso.

    Isso nos é passado (discovery e etc) como uma conclusao científica, pq alcançada segundo os métodos empíricos científicos. Não conheço nenhum trabalho que rejeita o resultado de seu experimento, ou desqualifica o seu método.

    Se for científico, nao poderia ser uma arbitrariedade passar-lhe a navalha? Onde que a navalha vai passar?

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