O misticismo e a Física Quântica

         As teorias desenvolvidas no século passado, que deram corpo à Física Quântica, desbancaram o determinismo científico que tinha em Laplace o seu maior defensor. Dizia ele que, se conhecêssemos o estado de todas as partículas do universo, num determinado instante, e as leis físicas que regem o seu comportamento, então poderíamos determinar o estado das partículas em qualquer momento no futuro. Sabemos, agora, que isto é impossível, pois, de acordo com a Física Moderna, os estados das partículas, em qualquer instante, não estão inequivocamente determinados mas são regidos por uma “função de onda” que atribui a eles probabilidades e não certeza. Enfim, a natureza é probabilística e não determinística.

         Essa estranha característica da natureza vem sendo explorada por místicos, religiosos e até por cientistas para, cada um a seu modo, dar embasamento às suas crenças. Apresento, a seguir, uma pequena amostra de textos que utilizam esse expediente, em ordem cronológica, extraída de livros que li sobre o assunto.

         Fritjof Capra, em “O Tao da Física” (Editora Cultrix, 1975), estabelece um paralelismo entre as filosofias religiosas orientais e a Física Moderna. Esse paralelismo está no fato de que ambas as abordagens levam a uma mesma visão de unidade de todas as coisas que compõem o universo. As filosofias orientais o fazem por meio da introspecção, perscrutando os estados mais remotos da consciência, enquanto que a Física o faz estudando a matéria em níveis microscópicos. Mesmo sem entender exatamente o que o autor quer dizer com isso, parece-me claro que ele quer dar credibilidade científica à milenar filosofia oriental.

         Richard Swinburne, em “Is There A God?” (Oxford University Press, 1996), procura utilizar as últimas realizações da Física em busca de provas da existência de Deus. Um aspecto particularmente curioso em seu livro é quando ele procura mostrar que o livre arbítrio pode existir sem contrariar as leis da Física. Para isto, ele invoca o princípio da incerteza como a porta de entrada para a atuação da mente humana sem ferir qualquer princípio físico (?). Enfim, você tem livre arbítrio para ler ou não esse livro.

         “Quem Se Atreve A Ter Certeza?” (Editora Mercuryo, 2004) foi escrito por José Pedro e Maria de Lourdes Andretta. Os autores defendem a tese de que a mente humana pode interferir no comportamento quântico das partículas e, como consequência, direcionar os eventos para os seus propósitos. Mas, para que isto aconteça, temos que dar crédito e importância aos nossos propósitos (?). Como curiosidade, menciono que comprei esse livro porque a co-autora nasceu em Santo Antônio de Posse, a minha cidade natal.

         Por último menciono o livro do físico indiano Amit Goswami, “O Universo Consciente” (Ed. Aleph – 2008), no qual o autor cria o conceito do universo autoconsciente, segundo o qual uma consciência cósmica é responsável pela manifestação de todos os fenômenos reais. Segundo ele, suas ideias estão respaldadas na Física Quântica (ou, talvez, resolvem o paradoxo dela), que estabelece que os eventos, antes de se concretizarem, estão condicionados a uma onda de possibilidades que só pode se traduzir em realidade na presença de um observador. A consciência cósmica faz o papel desse observador (V. Revivendo Gaia, neste blog).

         A proliferação de textos dessa natureza deve-se à nossa atual incapacidade (incluindo os cientistas) de entender plenamente os resultados da Física Quântica. Num futuro próximo talvez as coisas fiquem mais claras e a contribuição da Física para a solução das nossas questões filosóficas possa ser melhor avaliada.

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