O alienígena e o vírus da gripe

         Duas notícias da área científica circularam na mídia recentemente. A primeira aconteceu em outubro passado quando foram divulgados resultados otimistas da pesquisa para a produção de uma vacina universal contra a gripe. A segunda foi a divulgação, nos últimos dias, da descoberta da bactéria GFAJ-1, capaz de substituir o elemento fósforo pelo elemento arsênio, em seu DNA, e em outras moléculas de sua célula.

         O que as notícias têm em comum? Nada, tirando o fato de que ambas se referem a resultados obtidos por mentes brilhantes. A primeira trata de uma pesquisa que vem sendo feita há muito tempo para se desenvolver uma vacina universal contra a gripe, que evite que as pessoas sejam vacinadas todos os anos para ficar imunes às frequentes mutações do vírus. Uma equipe de pesquisadores da Escola de Medicina Mount Sinai, dos EUA, identificou uma parte imutável do vírus da gripe e desenvolveu a vacina para atuar sobre ela, imunizando o indivíduo contra qualquer mutação daquele vírus. Testes feitos em ratos foram bem sucedidos e em futuro próximo ela poderá vir a ser testada em humanos.

         A segunda pesquisa foi feita por uma equipe de pesquisadores da NASA, com a bactéria GFAJ-1, encontrada no Lago Mono, na Califórnia. A pesquisa consistiu em desenvolver uma cultura daquela bactéria em um ambiente com grande concentração de arsênio. O experimento mostrou que a bactéria não só conseguiu se adaptar ao meio como alterou a sua estrutura interna, substituindo o elemento fósforo (escasso no ambiente do experimento) pelo arsênio (abundante no experimento) na estrutura do seu próprio DNA. Isto é inusitado, pois todos os seres vivos conhecidos utilizam apenas seis elementos em seu DNA: carbono, oxigênio, hidrogênio, nitrogênio, fósforo e enxofre. Se os resultados da pesquisa forem confirmados, a bactéria GFAJ-1 é o primeiro ser vivo a prescindir de um dos seis elementos considerados fundamentais para a vida.

         Quero dar destaque às diferentes repercussões que as notícias tiveram na mídia. Enquanto que a primeira foi assunto quase exclusivo de revistas especializadas, salvo breves menções nos meios de comunicação, a segunda foi noticiada exaustivamente nos jornais, revistas e televisão e debatida calorosamente na Internet. À primeira vista, parece que deveria ser o contrário. Afinal, estamos esperando, há muito tempo, uma vacina contra a gripe, que acabe com esse desconforto que quase todos nós experimentamos todo ano e que, em muitos casos, se transforma em coisa mais séria. O que nos interessa uma bactéria que usa arsênio em lugar de fósforo? Nem sabemos bem o que é uma coisa e outra!

         A mídia teria se enganado ao dar destaque à segunda mais do que à primeira? Certamente não! E a explicação está no fato de que as pessoas têm uma especial atração por assuntos que tratam de vida fora do nosso planeta, de alienígenas. A pesquisa com a bactéria tem tudo a ver com esse assunto pois, como foi exaustivamente divulgado, se um organismo vivo conseguiu se adaptar a um meio hostil, como aquele saturado de arsênio, alterando a sua própria estrutura genética, fica mais plausível encontrar vida em outros planetas que não têm exatamente as mesmas condições da Terra. (Alguns jornais americanos mais sensacionalistas chegaram até a chamar a bactéria de alienígena.) Enfim, se os resultados da pesquisa forem confirmados, a criação da vida parece ser um episódio menos improvável do que se supunha e ele pode muito bem ter acontecido em outros mundos.

         O que é uma simples gripe comparada com um encontro com seres de outros planetas? O que não se espera é que eles tragam consigo novas formas de vírus.

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