Espelho, espelho meu

         O espelho não precisa ser mágico como o da rainha má, da história da Branca de Neve, para nos enfeitiçar. É impressionante a sua capacidade de chamar a atenção das pessoas que passam diante dele. Em casa temos mais de 20 espelhos e todos eles são vistos pelo menos uma vez por dia. Qual será a explicação para tanta atração? Imagino que não seja apenas a sua utilidade no asseio pessoal. Penso que ela tem tudo a ver com o fato de ele permitir que o indivíduo veja a si mesmo ali refletido. Assim como ouvir a própria voz, a visão de si próprio é uma experiência curiosa e surpreendente.

         Não é a toa que o espelho tem sido utilizado por psicólogos como um instrumento de teste em humanos e animais para aferir suas habilidades cognitivas. Ele é um excelente instrumento para testar se um animal tem a capacidade de perceber a si próprio (autopercepção, self-awareness). Nos testes mais simples, o experimentador faz uma marca numa posição do corpo do animal que ele não possa observar diretamente, por exemplo, na testa, (ou tinge os pelos de sua cabeça) e o coloca diante de um espelho. A reação do animal diante da sua imagem refletida no espelho pode dar informações valiosas para o cientista sobre a sua capacidade mental. A reação normal de um animal que tem a capacidade de autopercepção é a de colocar a mão diretamente sobre a marca em seu corpo (ou em seus cabelos tingidos), dando a entender que ele reconhece como sua a imagem refletida no espelho e que aquela marca (ou cabelo tingido) não deveria estar ali pois ele não a observa nos seus semelhantes.

         Testes semelhantes podem ser feitos em bebês humanos e é uma regra quase universal que as crianças de 24 meses passam neste tipo de teste. As pesquisas mostram, também, que a capacidade de autopercepção se manifesta junto com o desenvolvimento da empatia (capacidade de entender o que outra pessoa pode estar sentindo em determinadas circunstâncias), sendo a primeira um pré-requisito da segunda.

         Todavia, os resultados de uma pesquisa recente, comentados em artigo da revista Scientific American, surpreenderam os pesquisadores parecendo contestar as conclusões acima. Crianças do Quênia, com até 6 anos de idade, foram submetidas ao teste do espelho e somente 2 em 82 passaram no teste. O que significa isso? Elas ainda não teriam adquirido a capacidade de autopercepção, apesar da idade avançada? Não é essa a conclusão, segundo os autores da pesquisa. Diante da sua imagem refletida no espelho, as crianças não reagiram como se esperava, sorrindo, acenando com curiosidade, ou apontando traços inesperados em sua imagem. Ao invés disso, ficaram momentaneamente paralisadas, em visível desconforto, diante da própria imagem. Uma análise mais profunda desse comportamento concluiu que ele pode ser detectado em certas culturas e ele também é prova da capacidade de autopercepção.

         Esse episódio mostra como a natureza humana é fascinante. Outros animais também têm a capacidade de autopercepção mas foi com a raça humana que ela atingiu um alto grau de sofisticação. Ela é resultante de um pacto complexo entre forças biológicas, ambientais e culturais, que ainda não compreendemos muito bem. Mas agora ficou mais fácil entender porque os exploradores europeus conquistaram os nossos indígenas simplesmente oferecendo-lhes uma porção de espelhinhos.

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5 comentários sobre “Espelho, espelho meu

  1. Acho que faltou o fator”idade” na pesquisa. Até os 40 anos eu tinha o maior prazer em ver minha imagem refletida no espelho. Se lá estava alguma imperfeição que me incomodava, eu tinha certeza de que era passageira ( como uma espinha ou descascado de sol ). Hoje, corro do espelho como quem corre de assombração. Acho que aquela imagem não é minha, apareceu ali só para me assustar……………..

  2. Caco achei interessante este artigo pois um dos meus livros prediletos e deixo aqui minha recomendação é Alice Através do Espelho de Lewis Carrol um clássico de 1832.

  3. Olá Caco, embora em casa nós temos mais ou menos 20 espelhos, eu corro deles como o diabo da cruz. De máquina fotográfica então nem se fala. Bjs. Ninha

  4. Olha lá a estética de novo dando mais IBOPE do que assuntos “menos” importantes……na proxima encarnação vou ser cirurgião plástico…..
    Abços,
    TUI

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