A grande ilusão

         Esta expressão é utilizada pelos neurocientistas para exprimir a ideia de que o cérebro é o poder que cria o mundo à nossa volta e o faz de acordo com a sua própria concepção. Tudo o que conhecemos ou experimentamos não é nada mais do que uma figura ou modelo do mundo, construído pelo cérebro de acordo com as suas próprias regras. Nós somos todos vítimas de uma ilusão em grande escala.

         Alva Noë, em seu livro “Out of our heads”, combate essa ideia e ainda defende a tese de que o nosso cérebro não é a residência da nossa consciência, i.e., da nossa capacidade de pensar, sentir e perceber o mundo. Segundo ele, a nossa consciência deve ser entendida como um estado mental a que temos acesso por meio da interação cérebro, corpo e ambiente que nos cerca. Em outras palavras, nossa mente não está em nosso cérebro.

         Citei esse livro no artigo “Onde estou?” quando tomei conhecimento pela primeira vez da ideia do autor. Agora, depois de ter lido o livro, estou dividido entre as várias argumentações do autor. Vou mencionar aqui algumas afirmações dele para dar ao leitor do blog a oportunidade de pensar a respeito delas (é claro que melhor seria ler o livro).

O cérebro não funciona como um processador de informações. Ele é capaz de receber informações dos órgãos sensoriais e transformá-las em padrões neurais, mas não tem a capacidade de inferir sobre as características do mundo exterior de onde se originaram as informações. Falando-se da visão, os padrões neurais que são correlatos aos estímulos na retina não são a última etapa do processo de perceber o objeto; falta algo que o cérebro não é capaz de realizar. Em outras palavras, não existe um “homenzinho” lá dentro que consiga “ver” o objeto com auxílio apenas dos padrões neurais.

Computadores não pensam (ou vêem ou jogam xadrez). Computadores não podem pensar por conta própria do mesmo modo que um martelo não prega um prego por si próprio. Eles são ferramentas que usamos para nos ajudar a pensar. Por esta razão, não conseguimos nenhum progresso em tentar entender como o cérebro pensa simplesmente associando-o com computadores.

É enganoso procurar por correlatos neurais da consciência. Não há tais estruturas neurais. Como poderia haver? É um engano pensar que a visão é um processo no cérebro através do qual ele constrói uma representação do mundo à nossa volta.

Não somos o nosso cérebro. Esta é a afirmação mais importante, sobre a qual o autor discorre ao longo de todo o livro e é a sua tese principal. O cérebro não é, por si só, uma fonte de experiência e cognição. Experiência e cognição não são subprodutos do corpo humano. O que dá significado aos estados vividos pelos animais é o seu engajamento dinâmico com o mundo à sua volta.

         Minha impressão ao ler o livro é a de que o autor foi bem sucedido em contestar a ideia da grande ilusão. Suas explicações são bastante convincentes em mostrar como temos a capacidade de interagir com o mundo à nossa volta, enfraquecendo sobremaneira a teoria da grande ilusão. Já em relação ao seu objetivo maior, que é o de convencer o leitor de que a consciência não se manifesta por completo no nosso cérebro, a argumentação não é tão convincente. Mais importante, ainda, o autor não oferece qualquer pista sobre como a interação cérebro, corpo e mundo exterior gera a consciência no indivíduo. De qualquer modo trata-se de uma nova linha de pesquisa sobre um tema apaixonante: como entender o processo que nos faz entender o mundo.

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4 comentários sobre “A grande ilusão

  1. Dias,

    Essa área foi o objeto de estudo de Freud e de seus sucessores na Psicanálise. Tenho estudado ultimamente Bion, um de seus seguidores, que tem muito a ver com o que V. colocou. Alguns conceitos de Bion:

    1- Não dá para se chegar à Verdade. Ela é iconoscível (existe essa palavra?). O que dá para fazer é um modelo mental e tentar aprimorá-lo cada vez mais.

    2- (assim como os budistas) Não dá para saber se duas pessoas vêem a mesma realidade. Quando se olha, por exemplo, para uma garrafa de Coca-Cola, um garoto americano vê o saciador de sua sede. Já o Bin Laden vê o símbolo do Imperialismo americano.

    3- O “pensamento” é externo ao pensador. O que um bom pensador tem que ter é a capacidade de acolher o pensamento (que ele chama de capacidade de continência). Emoções fortes. por exemplo, são inimigas do pensamento, já que o distorcem.

    Abraço,

    Ary

    • Caro Ary, Esse assunto é mesmo instigante. Tanto é que esses pensadores vêm lidando com ele há muito tempo. A divergência de opinião entre eles mostra como ele é complexo. Pelas suas informações, noto, por exemplo, que Bion é partidário, num certo sentido, da Grande Ilusão. Por outro lado, o autor que cito, o filósofo Alva Noë, tem convicção que temos a capacidade de perceber o mundo como ele é (o que não é o mesmo que dizer “de entendê-lo”). Por outro lado, parece que ambos se aproximam quanto ao fato de que o pensamento é externo ao pensador. Quanto a conhecer a mente de outras pessoas, o livro que menciono tem comentários interessantes sobre a dificuldade da ciência em abordar esse assunto e as implicações disso para lidar com o caso de pacientes em estado vegetativo ou com outras limitações que os impedem de se comunicar com o mundo exterior. Um grande abraço. Caco Dias

  2. Caco Dias,

    Não sei se entendi bem o que você ou o Alva Noë chamam de “a Grande Ilusão”.

    Para mim, o que Bion (ou o budismo) diz é que cada um vê o mundo de acordo com a sua experiência anterior (cultural, religiosa, pessoal, etc.). Ou seja, cada um “percebe” o mundo através de seus própios filtros, e portanto, tem uma imagem diferente do mundo. Citei, como exemplos extremos, um garoto americano e o Bin Laden.

    Mas não há nenhuma verdade nisso, é apenas um modelo de como pode ser esse processo. O Bion, o Alva Noë, você e eu, cada um tem um modelo. E podemos discutir o assunto por séculos sem chegar à nenhuma conclusão, já que nós dois vemos o mundo através de modelos diferentes. Mas isso já é um meta papo,,,

    Abraço,

    Ary

    • Ary – A grande ilusão a que Alva Noë se refere diz respeito à nossa percepção da realidade física. Nosso cérebro faz uma leitura das informações colhidas pelos órgãos sensoriais utilizando regras próprias (grosseiramente falando, como se utilizasse um software de reconhecimento de padrões – exemplo meu). O resultado disso é que pensamos estar diante de uma observação direta e precisa do objeto quando, na realidade, isso não acontece. Daí a expressão “grande ilusão”. Talvez você (ou Bion) esteja falando do “significado interno” que o indivíduo atribui aos objetos e não propriamente da sua percepção física. Parecem ser coisas diferentes mas que podem ser tratadas com similaridade. O cérebro utiliza os filtros (a que você se refere) sobre o significado, assim como as regras próprias (a que me refiro) sobre a percepção física. Daí eu ter associado Bion com a grande ilusão. Posso estar falando muita bobagem, mas pelo menos estou tentando lhe explicar o meu “modelo mental” sobre o assunto. Abs. Caco Dias

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