Dinossauro no palheiro

         Esta história foi extraída do livro do paleontólogo Stephen Jay Gould, “Dinossauro no palheiro: reflexões sobre história natural”, Editora Companhia das Letras, 1997. Gould, falecido em 2002, foi um cientista com uma rara habilidade de escritor, o que o transformou num dos maiores divulgadores da ciência, em especial da teoria da evolução das espécies. Seus dons literários foram reconhecidos até pelo seu maior adversário e crítico de suas teorias na área da biologia evolutiva, Richard Dawkins. O livro citado é uma coletânea de ensaios sobre história natural que, em virtude da habilidade do autor, se transformam em histórias para o deleite de qualquer leitor.

         Dinossauro no palheiro trata de um episódio recente que serve como um excelente exemplo de aplicação do método científico, pelo qual teorias (ideias) e observações (medições) se complementam na busca do conhecimento científico. A história em questão refere-se ao desaparecimento dos dinossauros e outras espécies há cerca de 65 milhões de anos, na transição Cretáceo – Terciário. Na década de 70, do século passado, acreditava-se que as espécies que desapareceram na transição Cretáceo – Terciário, entre elas os dinossauros, foram extintas por mudanças naturais no eco-sistema que o tornaram hostil àquelas espécies. Os registros fósseis das espécies desaparecidas mostravam, através das camadas geológicas, que as espécies se extinguiram em épocas diferentes num processo natural e gradual.

         Por essa razão, quando a dupla de pesquisadores Luis e Walter Alvarez (pai e filho), em 1979, levantou a hipótese de que os dinossauros e outras espécies foram extintos em virtude do impacto de um asteróide ou cometa com a Terra, a maioria dos paleontólogos reagiu fortemente contra a ideia. Afinal, os registros fósseis não mostravam nenhuma evidência de uma extinção em massa. Em especial, os fósseis mais recentes de dinossauros eram de uma época bem anterior à da suposta queda do asteróide e, portanto, teriam sido extintos muito antes.

         Todavia, os paleontólogos já sabiam que os registros fósseis são muito incompletos pois algumas espécies são mais sujeitas do que outras a deixar restos fossilizados. As espécies mais comuns deixam fósseis em cada centímetro da camada geológica, enquanto que as mais raras deixam fósseis em intervalos mais amplos. Em vista disso, uma extinção em massa pode passar desapercebida pela observação do registro fóssil, pois a camada geológica que marca o instante da tragédia pode não conter os fósseis de todas as espécies extintas naquele momento. Pode-se facilmente ser levado a acreditar que as espécies mais raras tenham se extinguido antes, pois o seu último fóssil encontrado terá, muito provavelmente, data anterior à da tragédia.

         Em vista disso, alguns paleontólogos levaram a sério a hipótese dos Alvarez e, em face da nova teoria, resolveram fazer novas escavações em busca de fósseis que comprovassem a hipótese da extinção pela queda do asteróide. A ideia por trás disso era a de que, se os dinossauros realmente tivessem sido extintos por causa do impacto do corpo celeste, algum fóssil haveria de ser encontrado numa camada geológica correspondente à época do impacto, em algum sítio ainda não explorado. Entretanto, era como procurar uma agulha num palheiro. Daí o título desta história.

         Em 1991, finalmente, foram encontrados os fósseis que comprovaram que os dinossauros ainda existiam na época do impacto. Além disto, foram encontrados, também, fósseis de outras espécies raras que datavam da época do impacto, dando força à hipótese da dupla Alvarez. Os custos e o trabalho para obter essas provas foram enormes e poderiam dar em nada, mas a comunidade científica entendeu que a busca do conhecimento científico justificava o risco do empreendimento. O próprio Gould utiliza em seu texto uma frase de Darwin que bem caracteriza essa aventura: “toda observação deve ser a favor ou contra alguma concepção para ter alguma serventia”.

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5 comentários sobre “Dinossauro no palheiro

    • Aristides, Se algum dia eu vier a dar um prêmio ao leitor mais fiel do blog você certamente será o ganhador. Obrigado pelo apoio e espero, sinceramente, que os textos sejam do seu interesse. Um grande abraço. Oscar/Dias/Caco

  1. O risco e o custo do empreendimento justificaram o projeto mas não encontraram rastros de DNA de alguns “mamutes” que ainda habitam nosso planeta e não se sabe de onde vieram.

    • Guiga – Eu também conheço alguns desses mamutes a que você se refere. Eles só podem ser alienígenas que estão testando a nossa tolerância. A propósito, gosto dos seus comentários que dão um pouco de humor a este blog carrancudo. Abs. Caco

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