Onde estou?

         Num dos filmes “Guerra nas Estrelas” o Império tinha uma arma infernal que era um enorme robô, em cuja cabeça ficava uma pessoa – diminuta em relação ao tamanho do robô – que controlava as suas ações para caminhar e acionar as suas armas. Quando assisti àquele filme, fiz uma imagem na minha cabeça do nosso próprio organismo: nosso corpo representado pelo robô e nosso cérebro representado pela pessoa no controle. Acho que a maioria das pessoas tem uma visão parecida de seu próprio corpo. O cérebro não é apenas um órgão do corpo, ele é o local onde a nossa consciência se manifesta, onde está a nossa capacidade de sentir quem somos, de construir a nossa identidade. O restante do corpo é apenas um acessório que faz aquilo que o cérebro determina.

         Essa representação simples da consciência localizada no cérebro, entretanto, está longe de ser uma unanimidade. Ela entra em conflito, por exemplo, com o conceito religioso de alma. A alma é o que nos faz humanos e o que caracteriza a nossa individualidade. Ela é imaterial, está acoplada ao nosso corpo, mas definitivamente não reside no cérebro ou, ao menos, não é uma manifestação deste. Corpo e alma compõem uma unidade que só é desfeita com a morte do indivíduo. Outras religiões ou filosofias falam de consciências que extrapolam o indivíduo. Já falei em outro texto (Revivendo Gaia) de uma teoria proposta pelo físico indiano Amit Goswami, segundo a qual existe uma consciência cósmica que é responsável pela manifestação de todos os fenômenos reais.

         Agora, tomei conhecimento de mais uma crítica ao conceito de que a nossa consciência está localizada no cérebro. Ela está num artigo publicado pelo filósofo Alva Noë, em seu blog, intitulado “Strangers In A Strange Land” (Estranhos Numa Terra Estranha). Nele, o autor critica o conceito “nós somos o nosso cérebro”, taxando-o de ultrapassado em face dos novos progressos no entendimento da consciência. Ele aponta que somos prisioneiros da ideia de que ou a consciência está em nós ou ela se deve a algo sobrenatural e, assim, ficamos sem saída porque não conseguimos explicar nem uma nem outra alternativa. Ele pergunta, então: por que olhar dentro de nossas cabeças para procurar por nós mesmos? E nos estimula a pensar por meio de uma analogia: procurar a consciência dentro de nós seria como se quiséssemos achar o valor do dinheiro analisando as moléculas das notas fabricadas pela Casa da Moeda. Mas ressalta que essa busca em vão não significa que o valor do dinheiro seja algo misterioso.

         Ele conclui dizendo que o pensar e o sentir não acontecem dentro de você ou dentro de sua cabeça ou em algum outro lugar. Consciência é algo que você realiza e, como tudo o que você faz, tem a ver com tudo que está a sua volta, inclusive outras pessoas. Para entender melhor este conceito só lendo o seu livro (o que penso fazer brevemente) “Out of Our Heads: Why You Are Not Your Brain and Other Lessons from the Biology of Consciousness” (Fora de Suas Cabeças: Porque Você Não É o Seu Cérebro e Outras Lições da Biologia da Consciência).

         Entender a natureza da consciência humana continua sendo um desafio para os estudiosos do assunto e um tema instigante para os leigos. A consciência é algo tão fascinante que se não existisse de nada adiantaria toda a beleza do universo pois não haveria ninguém para contemplá-la.

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2 comentários sobre “Onde estou?

  1. É mesmo difícil procurar e definir a consciência. Por outro lado, fica muito fácil colocar nos poderes divinos a criação do nosso corpo e mente interagindo a partir de um sopro que se fez vida. Não pretendo vasculhar meu cérebro a procura da consciência, talvez ele esteja até mesmo vazio e vai ser uma decepção e tanto encontrar tão somente um buraco enorme. Melhor ter como objetivo que corpo e mente funcionem num conjunto perfeito revelando que a consciência adquirida esteja guardadinha e pulsando dentro de nós, talvez até mesmo junto ao coração que simboliza sentimentos ou mesmo junto ao cérebro edificando a razão.

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