Deus existe, Deus não existe

         “A criação espontânea é a razão porque existe alguma coisa ao invés do nada, é a razão de o Universo existir, é a razão de nós existirmos. Não é necessário invocar Deus para dar origem ao Universo.” Estas frases estão no último livro de Stephen Hawking, em colaboração com Leonard Mlodinow, intitulado “The Grand Design”. Elas provocaram várias reações no meio científico e reavivaram a disputa entre ciência e religião sobre a questão da existência ou não de Deus.

         Há muito, Hawking vem abordando esta questão ao divulgar os seus trabalhos científicos. Em seu livro de 1988, “Uma Breve História do Tempo”, ele escreveu:

…se descobrirmos de fato uma teoria completa, ela deverá, ao longo do tempo, ser compreendida, grosso modo, por todos e não apenas por alguns poucos cientistas. Então devemos todos, filósofos, cientistas, e mesmo leigos, ser capazes de fazer parte das discussões sobre a questão de por que nós e o universo existimos. Se encontrarmos a resposta para isto teremos o triunfo definitivo da razão humana; porque, então, teremos atingido o conhecimento da mente de Deus.

         Agora, em “The Grand Design”, ele parece ter encontrado uma resposta que exclui Deus por completo. O físico brasileiro, Marcelo Gleiser, em seu blog no site 13.7, publicou um artigo intitulado “Hawking and God: An Intimate Relationship” (Hawking e Deus: Uma Relação Íntima) em que explica de forma resumida a ideia de Hawking e Mlodinow: o Universo pode surgir de um estado de energia zero por meio de flutuações espontâneas (sistemas quânticos estão permanentemente flutuando em razão da incerteza quântica) dentre possíveis universos que coexistem num multiverso sem a existência do tempo. Complicado? Sim, mas o que se pode captar da ideia é que entre as infindáveis gerações espontâneas de universos, uma delas há de ter as características necessárias para o aparecimento da vida e de seres como nós. Portanto a nossa existência não é uma coisa rara, mas sim muito provável num processo que se repete ad infinitum. Gleiser, que já expressou sua descrença em uma teoria que tudo explica, em seu livro “Criação Imperfeita”, evidentemente é contrário às ideias de Hawking e diz que elas têm tantas evidências empíricas quanto a própria tese da existência de Deus.

         A bióloga Ursula Goodenough, em seu artigo “God And No-God Mongering: A Cycle Of Science Vs Religion Begins Anew” (algo como: “Vendendo a ideia da existência ou não de Deus: Um Ciclo de Ciência Vs Religião Começa De Novo”) no mesmo site 13.7, também é muito crítica em relação à proposta de Hawking. Ela mostra certo aborrecimento com o acirramento dessa disputa entre religião e ciência, a qual, segundo ela, não terá fim porque uma parte não ouve o que a outra tem a dizer. Ademais, ela é manifestamente contra a ideia de que religião e ciência não se misturam. Se a religião está interessada nos propósitos das coisas existentes e nos padrões morais que devem governar os nossos comportamentos, a ciência pode explicar melhor o que são e como funcionam essas coisas, além de ajudar no entendimento do comportamento humano. Novos conhecimentos científicos sobre a natureza podem, portanto, trazer implicações religiosas. Seu texto “Are You a Religious Naturalist Without Knowing It?” (Você É Um Naturalista Religioso Sem Saber”) explora este assunto.

         Esta é, portanto, uma história contada sob diversos ângulos. Qual deles é o certo, ou mesmo, se existe um ângulo certo, é uma questão que deve perdurar sem resposta por muito tempo.

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