A natureza e a ciência

         Como numa brincadeira de esconde-esconde, a natureza resiste em se revelar inteiramente aos olhos da ciência. No início do século XIX, o matemático e físico francês, o marquês de Laplace, afirmou que, se conhecêssemos as posições e velocidades de todas as partículas do universo em determinado momento, as leis da física deveriam permitir que prevíssemos o estado do universo em qualquer outro momento do passado ou do futuro. Esse determinismo científico era tão extremo que implicava a rejeição do conceito de livre arbítrio, pois as nossas escolhas futuras já estariam determinadas pelas leis da física. Mais tarde, no século XX, a mecânica quântica, através do princípio da incerteza, de Werner Heisenberg, derrubou o determinismo de Laplace ao introduzir a probabilidade aos estados das partículas elementares da matéria. Sob a luz desse princípio, não seria teoricamente possível determinar o estado futuro do universo, pois sequer teríamos condições de conhecer o seu estado atual, a não ser por meio de probabilidades.

         A Folha de São Paulo postou na seção de Ciências, em seu site, no dia 14 de outubro, uma declaração do diretor do Instituto Nacional de Pesquisa do Genoma Humano (EUA), Eric Green, na qual ele se diz desapontado com os resultados da pesquisa com o genoma humano. Os cientistas esperavam muito mais do que foi obtido até agora. Dez anos após o sequenciamento do genoma humano ter sido concluído, ele reconhece que analisar os dados levantados e relacionar determinados genes a determinadas doenças mostrou-se algo difícil de fazer. O desapontamento parece ser fruto da grande expectativa que se criara sobre o papel do genoma como um gabarito para a construção do corpo humano. Um artigo do Baker Institute Blog, de 28 de junho de 2010, ao falar das dificuldades encontradas pelo projeto do genoma no período de 10 anos desde que foi concluído o sequenciamento, afirma que “O problema foi detectado quando os pesquisadores iniciaram a difícil tarefa de determinar as variações genéticas que levam às doenças. Eles logo se deram conta da magnitude e da complexidade da tarefa. Ainda que algumas variações nos genes tenham sido diretamente ligadas a doenças, elas são pequenas partes do mecanismo geral que controla as doenças, com complexidades que incluem fatores multi-genes e influências ambientais.”

         Os dois casos citados são semelhantes no que diz respeito à súbita mudança de paradigma que provocou o desapontamento naqueles que acreditavam que a ciência tinha chegado próximo do fim em determinados aspectos. A história da ciência nos ensina que estes exemplos não são os primeiros e nem serão os últimos a desapontar os cientistas e o público leigo. Todavia, apesar do desapontamento, ninguém questiona os avanços científicos obtidos com a teoria da mecânica quântica e com as pesquisas com o genoma humano. Essa parece ser a maneira como a ciência avança.

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