Vidas paralelas

         Se você está frustrado porque a sua vida não anda muito bem, saiba que um outro “você”, num universo paralelo, pode estar muito feliz com a vida dele. Tempos atrás, esta ideia era assunto apenas para histórias de ficção científica, mas hoje ela faz parte de uma teoria que vem sendo debatida seriamente pelos cientistas.

         O autor dessa teoria – a dos multiversos ou universos paralelos – foi Hugh Everett, que a propôs há mais de 50 anos, mas nunca foi levado a sério até recentemente. A teoria é uma explicação complementar para a esquisitice da física quântica que estabelece que a matéria permanecerá num estado indefinido enquanto ela não interagir com algo. Por exemplo, um elétron estará simultaneamente nos locais A e B até que um observador, com um detector de elétrons, o observe no local A; nesse momento ele deixa de existir no local B. Todavia, para Everett, o elétron também estará no local B, mas num outro universo, que se criou quando o elétron foi detectado pelo observador. No momento da interação dois universos passaram a existir: um com o elétron na posição A e outro com o elétron na posição B. A extensão dessa interpretação para eventos macroscópicos foi imediata e, popularmente, a teoria passou a postular que qualquer evento, com diferentes resultados possíveis, gera tantos universos quantos forem os resultados possíveis.

         Quando Everett postulou a sua teoria ele não foi levado a sério pelos seus pares e foi até considerado ingênuo e arrogante por confrontar Niels Bohr, um dos gigantes da Física. Desgostoso ele acabou abandonando as suas pesquisas e, talvez por isso, viveu em forte depressão. Ele morreu jovem em 1982, aos 51 anos, sem ter qualquer reconhecimento por seu trabalho científico. Em 2008, quando o seu trabalho já estava tendo melhor aceitação no meio científico, a rede de TV americana PBS fez um documentário sobre a sua vida familiar e profissional. O filme, intitulado “Parallel Worlds, Parallel Lives” pode ser adquirido no site http://www.pbs.org/wgbh/nova/manyworlds/.

         Aparte as questões científicas, a teoria de Everett estimulou os cineastas a utilizá-la em filmes de ficção científica. Entre eles destaca-se o episódio da série Star Trek, intitulado Mirror Mirror, no qual os personagens acidentalmente adentram um universo paralelo onde vivem as suas cópias. Num dos filmes da trilogia “De volta para o futuro” este tema também é abordado.

         A teoria de Everett ainda está longe de ser uma unanimidade entre os físicos teóricos, mas é possível deduzir que a grande maioria do público leigo que a conhece está torcendo para que ela seja verdadeira, pois não há nada mais instigante do que saber que um outro “eu” está por aí, ainda que ele não possa ser visto nem tocado. Quem sabe, num desses mundos Everett ainda esteja vivo e rindo de Niels Bohr.

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7 comentários sobre “Vidas paralelas

  1. Muito bem Dias, a sua colocação é interessante principalmente para quem nunca pensou neste assunto.Para os pessimistas, os depressivos, aí está uma saída, talvez.
    Um abraço.

  2. Caco, sempre considrei esta teoria possível desde a descoberta das camadas quânticas em que o eletron não permanece frequentemente rodando em torno de seu núcleo, sem falar na busca dos mesmo pelas reações para buscar estabilidade eletrônica e antingir a Teoria do octeto, o que parece mas não é, os únicos presos a esta dimensão seriam os gases nobres e nos estamos procurando a entalpia o que seria a destruição da nossa espécie. Acho que talvez não vai demorar para ocorrer, seremos sugados por outras camadas eletrônicas, o que leva crer que tudo gira em torno do elétron.

  3. Ainda que o princípio da incerteza de Heisenberg pareça uma esquisitice, não compreendo que a explicação dos muitos universos seja uma alternativa.
    Lendo essa questão interessante dos muitos universos, lembrei-me imediatamente de um filme que indico, cujo tema central é exatamente esse. O filme é “O confronto”. Nessa história, um assassino viaja para todos os “multiversos” “se assassinando”, porque assim absorveria os poderes de seus “eus”.
    Se existirem universos paralelos, só espero que ninguém tenha essa idéia…

    Forte abraço

    • Caro Venâncio – O texto menciona que a explicação dos muitos universos é uma complementação e não uma alternativa para o princípio da incerteza. Talvez ambos os termos estejam mal empregados, mas o que o texto quer dizer é que, segundo a teoria dos universos paralelos, no momento da interação não é somente uma das possibilidades que se materializa, mas sim todas elas, ainda que em universos diferentes. Obrigado pela dica do filme. Um grande abraço.

  4. Morro de medo de encontrar meu outro “eu”.Será que ele é mais esperto? Será que vota no Netinho? Será que sabe costurar? Essas são realmente perguntas que me deixam angustiadas e não consigo me imaginar me vendo em outra dimensão. Só espero que pelo menos “eu” não tenha essa bursite que me atormenta.
    Abraço,
    Guiga

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