As metáforas e a ciência

         Não é só o presidente Lula que gosta de metáforas. Os cientistas também. As metáforas são muito úteis para levar ao público leigo o significado de certas teorias que, de outra maneira, seriam difíceis de serem entendidas. Um exemplo clássico de metáfora na ciência é o de representar o átomo como um sistema solar microscópico, com os elétrons girando em torno do núcleo, como os planetas em torno do sol. Também ficou muito conhecida a metáfora da cama elástica para ajudar no entendimento da lei de gravitação, na teoria geral da relatividade, de Einstein. Segundo essa analogia, o espaço seria como uma cama elástica onde se localizam os objetos que representam os corpos espaciais. Quanto maior a massa do objeto (corpo celeste), maior será a deformação que ele produzirá na cama elástica (espaço) e qualquer outro objeto que se aproximar da depressão causada na cama elástica tenderá a ser atraído por ela, caracterizando, assim, a atração gravitacional.

         Li recentemente um artigo na revista National Geographic, edição de outubro de 2010, escrito pelo jornalista do Washington Post, Joel Achenbach, sobre os experimentos que estão sendo realizados no Large Hádron Collider (LHC), na Suíça, para detectar o bóson de Higgs. Trata-se de uma partícula elementar que foi apelidada de “a partícula de Deus”, dada a sua fundamental importância para desvendar os mistérios do mundo microscópico. Segundo a teoria, essa partícula seria responsável por produzir “o campo de Higgs”, algo parecido com um campo eletromagnético, que por sua vez seria o responsável pelo aparecimento da massa em todas as demais partículas da matéria. Isso pode parecer muito abstrato, mas o ponto onde quero chegar é que o autor do artigo utiliza uma analogia curiosa para explicar essa teoria. Sabemos que as partículas do universo têm massas diferentes, algumas mais “pesadas” e outras mais “leves”, mas a natureza dessas massas é um mistério para a Ciência. O núcleo dos átomos é formado por quarks, que são partículas de grande massa, circundado por elétrons, que são partículas de pequena massa. A luz é constituída por fótons, que são partículas desprovidas de massa (massa zero). Imagine um lamaçal onde alguns indivíduos caminham com grandes botas, outros com sapatos e alguns simplesmente descalços. Os primeiros teriam grande dificuldade para caminhar, na medida em que as suas botas enchem-se de lama. Os segundos teriam alguma dificuldade com os seus sapatos e os últimos deslizariam os pés na lama, sem qualquer dificuldade. Os quarks são os indivíduos de botas, os elétrons, os de sapatos e os fótons, os descalços. O lamaçal seria o campo de Higgs, que discrimina os indivíduos de acordo com o seu tipo de calçado (diferentes massas).

         As metáforas não se prestam apenas para divulgar a ciência entre leigos, elas têm um papel muito mais importante em nossa vida. No livro intitulado “Do que é feito o pensamento” (Steven Pinker, Companhia das Letras, 2007) o autor ressalta a importância da metáfora no desenvolvimento da linguagem e no próprio modo como nosso pensamento é estruturado. (Achei o livro um tanto árido – olha a metáfora! – em certas partes, mas o capítulo que trata dos palavrões diverte qualquer leitor.) O livro explora a fundo como utilizamos as metáforas no dia-a-dia e como elas nos ajudam a formar conceitos abstratos a partir de conceitos do mundo físico.

         Para encerrar este assunto, cito uma metáfora que talvez tenha sido a mais polêmica no âmbito da ciência. Trata-se do uso, por Charles Darwin, da expressão “seleção natural” para caracterizar o processo segundo o qual as espécies evoluem. A polêmica está no fato de que essa expressão pode dar a entender que a natureza age com um propósito quando “seleciona” os organismos que sobreviverão. É fácil de perceber que essa ambigüidade deu e continua a dar muito pano pra manga (olha a metáfora novamente!) nas discussões sobre uma possível intervenção de Deus em todo o processo. Para se ter uma idéia de todo o aborrecimento que Darwin teve para defender o uso dessa expressão, cito um livro que encontrei na Internet: “Darwin’s metaphor: Nature’s place in Victorian culture”, capítulo IV, escrito por Robert M. Young. Enfim, para os amantes das discussões acerca da existência ou não de Deus, a expressão usada por Darwin, mais do que ambígua, foi muito oportuna.

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Um comentário sobre “As metáforas e a ciência

  1. Ainda bem (ou deveria dizer “graças a Deus”?) que voce atendeu aos apelos dos leitores e não “se aposentou”. Que pena que os textos são breves; deixa uma sensação de “quero mais”. Abraços Caco

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