A grande história da evolução

         O título acima é o mesmo do livro que li recentemente (Richard Dawkins – A grande história da evolução – Companhia das Letras) e que me estimulou a escrever este texto. Não sendo um livro de ficção, estes comentários não estragarão o prazer daqueles que ainda pretendem lê-lo. Quem já leu outras obras do mesmo autor encontrará nesse livro alguns textos que já lhe são familiares mas, agora, colocados em um contexto muito interessante.

         A espinha dorsal consiste em mostrar a evolução dos seres vivos, numa viagem retrospectiva no tempo, procurando identificar os ancestrais comuns das espécies existentes, até chegar ao primeiro organismo vivo, o ancestral de todos os demais. O interessante é que a história é contada como se fosse uma peregrinação do homem ao passado e, em cada momento em que um ancestral comum é encontrado, todas as outras espécies que compartilham esse ancestral se juntam como novos peregrinos. A cada encontro, alguns deles “narram um conto” no qual descrevem certas características curiosas de sua evolução. Através desses contos o autor explica o aparecimento de características marcantes nas diferentes espécies, como o andar em dois pés, as cores vivas de penas e plumas, o desaparecimento de pêlos, o respirar com auxílio de pulmões entre outras.

         As explicações têm natureza absolutamente científica e estão baseadas em registros fósseis, em comparações de DNA e em outras técnicas e estudos científicos. Evidentemente, nem toda a história pode ser resgatada com precisão e, em determinados momentos, o autor apresenta apenas hipóteses sobre como e porque a evolução se deu de uma certa maneira.

         É curioso (e surpreendente) tomar ciência de nossos parentescos mais próximos e das datas aproximadas em que os ancestrais comuns deram origem às novas espécies. Fiz um resumo das principais bifurcações da evolução que está apresentado a seguir. Na primeira coluna estão as espécies ou gêneros que tiveram um ancestral comum com o homem, na ordem cronológica decrescente em que esse ancestral viveu. Na segunda coluna, a época em que tal ancestral viveu. Por exemplo, há 75 milhões de anos viveu o ancestral que deu origem, por um lado, ao ramo que resultou nos roedores e coelhos e, por outro, ao que resultou nos seres humanos.

         Compreensivelmente, as datas no final da tabela são muito imprecisas. O autor cita eras geológicas, ao invés de anos, para localizar os eventos: NP = Neoproterozoica, MP = Mesoproterozoica, PP = Paleoproterozoica. Por exemplo, nosso ancestral comum com as plantas viveu no final da era mesoproterozoica, o que significa mais de 1 bilhão de anos atrás. Para se ter uma ideia de como os animais superiores são recentes, cite-se que as bactérias e arqueias reinaram por cerca de 2 bilhões de anos até o aparecimento da célula eucariótica, da qual todos os demais seres vivos são formados.

Espécies/gêneros

Época do ancestral comum      (Ma = milhões de anos)

Chimpanzé

6 Ma

Gorila

7 Ma

Orangotango

14 Ma

Macacos

40 Ma

Roedores e coelhos

75 Ma

Laurasiatérios (gato, cão, cavalo, baleia etc)

85 Ma

Afrotérios (elefante, peixe-boi etc)

105 Ma

Répteis e aves

310 Ma

Anfíbios

340 Ma

Peixes

440 Ma

Protostômios (insetos, moluscos, vermes etc)

>500 Ma

Cnidários (águas-vivas, corais etc)

NP

Fungos

MP

Plantas

MP

Bactérias e arqueias

PP

         Nos primórdios da vida, não apenas as datas são imprecisas, mas também a hierarquia dos organismos primordiais é difícil de ser determinada. Em certos momentos é difícil localizar a raiz da árvore genealógica, tal a diversidade dos micro-organismos e a relação de simbiose que se estabelecera entre as bactérias e os outros organismos. Um exemplo curioso dessa simbiose é o da mixotricha. Trata-se de um protozoário que vive no trato digestivo dos cupins e os seus aparentes pêlos microscópicos, que o ajudam a nadar no meio aquoso, são, na realidade, bactérias que nele se fixaram formando um organismo cooperativo. Outros exemplos mais conhecidos dessa simbiose são as mitocôndrias – bactérias ancestrais que têm um papel fundamental no núcleo das nossas células – e os cloroplastos, que têm um papel semelhante nas células das plantas.

         O livro é repleto de fatos curiosos como estes, mas no final o autor trata de uma questão mais fundamental, que é determinar o marco onde a vida se inicia, ou seja, que tipo de célula ou molécula teria sido a precursora de tudo e como ela teria se criado. Enfim, o livro é bastante didático ao tratar dessa e de outras questões sobre evolução, o que provoca no leitor o desejo de ir além neste assunto.

         Ao tomar conhecimento dessa bela história da evolução da vida e do mistério de como ela teria se iniciado é quase inevitável fazer um paralelo com outras questões científicas que também mexem com a nossa imaginação e, principalmente, com a compreensão dos cientistas. Do mesmo modo que o início da vida, também são instigantes as questões relativas à natureza última da consciência humana; o comportamento quântico das partículas fundamentais da matéria e os fenômenos que aconteceram no exato momento do Big-Bang, para citar algumas delas. A compreensão desses temas esbarra sempre em singularidades que parecem ser um artifício da natureza para encobrir os seus segredos. Desvendá-los, no entanto, é tarefa para os cientistas que transformarão suas descobertas em histórias para o nosso deleite.

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7 comentários sobre “A grande história da evolução

  1. Uma síntese perfeita, Caco. Melhor que isso, só se voce se utilizasse de mais espaço para escrever, o que evidentemente fugiria do escopo de uma síntese. Todavia, espero que seja suficiente para estimular as pessoas a buscar mais informações a cerca do assunto ou, melhor ainda, ler o original.

    Um abraço

  2. Em tempo, gostaria de uma sugestão para tema de um próximo blog? Fiquei estarrecido com a idéia de que a próxima glaciação da terra já está alguns milhares de anos atrasada. Ao ler isso meu primeiro pensamento foi procurar um curso de violão para não morrer sem ter resolvido essa minha grande frustação. Principalmente ao saber que será um processo súbito.

    Abraços

  3. Já li “Deus, um delirio” e “O Maior Espetáculo da Terra”. Richard Dawkins é realmente, em assuntos aparentemente sem ligação direta, um grande escritor, inteligente, provocante, lúcido, etc e etc.. Estou indo comprar o do gene egoista e este deste blog.

  4. O tema da origem da vida e sua evolução é muito interessante mesmo e o texto do Caco deu uma boa noção do que se encontrará no livro do Dawkins e uma curiosidade para lê-lo.

    O Marcelo Gleiser também dá uma pincelada sobre esse assunto de uma forma bem didática e precisa, mas certamente não da forma detalhada e rica do Dawkins que, afinal de contas, é biólogo.

    Está anotada a próxima leitura… Esse tema é fascinante.

    Abços!

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