Aurora Boreal

          A qualidade da vida em nosso planeta é um bem sob constante ameaça. Estamos sujeitos ao poder destruidor das catástrofes naturais e das mudanças climáticas, à contaminação periódica por novos e mais resistentes agentes transmissores de doenças, à demanda cada vez maior pelos recursos naturais que são limitados e, infelizmente, também à degradação do meio-ambiente provocada pelo próprio homem … e às guerras.

         Um dia teremos que abandonar o nosso planeta e procurar outro lugar para viver, se não em razão dessas ameaças imediatas, certamente porque em uma escala de tempo cosmológica o nosso planeta ficará irremediavelmente inabitável. Como o homem se adaptará a essa situação?

         Quero aproveitar este cenário para especular sobre o futuro do ser humano, prevendo como será a sua evolução num horizonte de tempo de milhões e até bilhões de anos à frente. Não é uma tarefa fácil, mas sempre se pode utilizar idéias de outros que já pensaram no assunto e, neste assunto, nada melhor do que utilizar as dicas dos filmes de ficção científica.

         Vou adotar uma posição otimista e supor que o homem conseguirá superar todas as ameaças acima e evitar que a nossa espécie seja extinta antes do final desta história. Como o homem evoluirá então?

         Um aspecto a considerar, quando se procura visualizar um cenário futuro, é que a seleção natural competirá com a seleção artificial conduzida pelo próprio homem por meio da manipulação genética. A natureza conduz a evolução por meio de mutações aleatórias nos genes dos seres vivos, selecionando depois as que melhor se adaptam ao ambiente (seleção natural) e esse processo se dá em escalas de milhões de anos. Os seres humanos já aprenderam a reproduzir artificialmente esse processo natural, tanto é que, por meio de cruzamentos seletivos, conseguiram produzir raças de animais, plantas ornamentais e alimentos com as características que lhes interessam, numa escala de tempo de uma ou poucas gerações. Um piscar de olhos quando comparada com a escala de tempo de mudanças semelhantes produzidas pela natureza.

         A evolução do homem tem necessariamente que levar em conta esse fato. Isto é, além da intervenção da natureza, o próprio homem terá papel decisivo na modelagem do homem do futuro. Os papéis dos dois atores sofrerão mudanças cada vez mais significativas daqui para frente, com a natureza se restringindo a moldar as condições ambientais e o homem a cuidar do controle das modificações genéticas.

         No curto prazo (por centenas de anos), os recursos limitados do planeta e a tecnologia darão as cartas favorecendo um homem econômico na reprodução, mais cuidadoso com o meio-ambiente e que utilizará intensamente a tecnologia para criar novas fontes de energia e de alimentos e, especialmente, para aparelhar seu organismo por meio de dispositivos artificiais ou de modificações genéticas que o tornem mais eficiente e resistente às doenças. Será o que se costuma chamar de homem biônico (como o Cyborg da antiga série de TV ou o Robocop do cinema).

         Um dia (a milhares de anos), após ter colonizado o espaço ao redor do seu planeta, já exaurido de recursos, ele deixará definitivamente a sua terra natal e explorará outros sistemas solares. Habitará planetas com diferentes tamanhos e, portanto, com gravidades diferentes daquela do seu planeta natal. Naqueles em que a gravidade for menor ele se dará muito bem, nos outros nem tanto. Isto porque a maior limitação dos seres humanos é a grande quantidade de energia que ele necessita para manter o seu organismo em funcionamento. Num planeta com alta gravidade, o homem precisa de uma estrutura óssea mais reforçada e, de um modo geral, de um organismo que necessita mais energia para funcionar. Num planeta com baixa gravidade, a energia que ele economiza para alimentar seu pequeno e leve organismo pode ser direcionada para o seu cérebro, o que resulta numa enorme vantagem evolutiva.

         Essa diáspora produzirá uma diversidade muito grande de seres humanos, gerando, nos diferentes planetas, criaturas com traços bizarros como mostraram as séries Star Trek e Babylon 5 e os filmes da sequência de “Guerra nas Estrelas”, mas a tendência será a do homem com cérebros avantajados e corpos esbeltos, como nos filmes “Contatos imediatos de terceiro grau” e “Missão: Marte”.

         Mas se a gravidade é uma restrição forte ao desenvolvimento pleno do homem, por que não viver em um ambiente sem gravidade, desvinculado de qualquer corpo celeste? Este é o cenário para um horizonte de milhões de anos, quando o homem deixará a terra firme para viver permanentemente no espaço. Para isso ele terá que criar um ambiente, na forma de um escudo que simula a atmosfera dos planetas, que o proteja da radiação cósmica nociva. Terá que retirar toda a energia que precisa diretamente da luz e calor das estrelas, sem fazer uso de intermediários, como hoje fazemos com as plantas. Para o estágio de desenvolvimento da época, isto será moleza.

         O estágio final – até onde eu consigo imaginar – será o do homem transformado num ser etéreo, cerebral, virtualmente desprovido de um corpo, algo parecido com os seres inteligentes de “2001 Uma Odisséia no Espaço”. Esse estágio será uma nova mudança de paradigma na história da evolução. A primeira ocorreu quando os organismos unicelulares deram origem aos multicelulares. Essa mudança demorou 2 bilhões de anos para acontecer. A mudança seguinte foi o aparecimento de um ser pensante, o homo sapiens. Foram, novamente, quase 2 bilhões de anos de espera. Se essa escala de tempo se mantiver, o homem cerebral aparecerá daqui a outros 2 bilhões de anos.

         Nesse estágio, a comunicação entre os indivíduos será feita diretamente por ondas cerebrais e a sociedade será vista como uma enorme rede de comunicações entre mentes individuais, na forma de uma grande rede neural, como se fosse um único e imenso cérebro. Os indivíduos atuarão como os neurônios num cérebro convencional, executando funções específicas em prol do conjunto. Toda a sociedade se confundirá com um enorme campo de energia luminosa, mas organizado, sensível e pensante, para o qual nenhum fenômeno imaginável poderá jamais se constituir em ameaça.

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Não muito longe, em um pequeno planeta rochoso, situado a uma distância confortável de seu sol, uma criatura de carne e osso poderia estar observando o céu, extasiada com aquele fenômeno de luzes e cores ondulantes que o seu povo convencionou chamar de Aurora Boreal.

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5 comentários sobre “Aurora Boreal

  1. Gostei, Caco

    Quando estava no ITA publiquei no Suplemento um artigo propondo que os OVNIS luminosos frequentemente noticiados pela imprensa na época se reais poderiam não serem naves de alienígenas como imaginavam os comentaristas, mas sim, porque não, serem os próprios aligienígenas, a se alimentar na atmosfera terrestre.

    E os Atos dos Apóstolos (At, 2,2) descreve o fenómeno de Pentecostes quando linguas de fogo luminosas em meio a um forte trovão pousaram sobre os apóstolos, que passaram a ser poliglotas e tiveram seu comportamento completamente alterado após o acontecido

    Abs, Galvão ITA-59

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