Terminou Lost. Ou não?

         Assisti com atraso os episódios finais de Lost. Imagino que, como eu, muitos dos que acompanharam a série ficaram frustrados com o rumo que a história tomou na sua última temporada. Tudo levava a crer que se tratava de uma trama de ficção científica com seres alienígenas por trás das características bizarras de uma ilha no Pacífico, onde os personagens ficaram isolados após o acidente com o vôo Oceanic 815.

         A história estava centrada na briga pelo poder sobre a ilha que possuía uma fonte de energia de grande potencial e que fora palco, num passado recente, de uma disputa entre os habitantes originais da ilha e os participantes de um projeto chamado de Iniciativa Dharma, que aportaram na ilha para a exploração de suas potencialidades. Os membros da Iniciativa Dharma acabaram derrotados e mortos pelos aborígines (chamados de “Outros”, ao longo da série) que dominavam a ilha quando aconteceu o acidente com o vôo 815.

         A história se desenvolvia em meio a muitos mistérios sobre a própria natureza da ilha, que não podia ser localizada no mapa e que podia ser movida no tempo por um dispositivo criado no passado por seus primeiros habitantes. Os sobreviventes do vôo 815 se viam envolvidos em viagens no tempo, ora regressando ao passado, ora retornando ao presente.

         Numa dessas viagens ao passado, a explosão de uma arma nuclear na ilha pareceu alterar os fatos e criar uma realidade alternativa em que o acidente com o vôo 815 não acontecera. Duas realidades distintas começaram a ser mostradas: uma na ilha, como se o futuro não houvesse sido alterado pela explosão, e outra, fora da ilha, num futuro alternativo no qual o acidente com o vôo 815 não ocorrera. Estava criado um clima genuíno de ficção científica.

         Todavia, à medida que a última temporada avançava, seus episódios tomavam uma direção inesperada (pelo menos para mim) em que a ficção científica dava lugar à alegoria. Os mistérios da ilha passavam para um segundo plano enquanto o seu significado (da ilha) ficava mais claro: a ilha tinha um papel especial para os sobreviventes e o acidente com o vôo 815 não teria acontecido por mero acaso.

         Finalmente revelou-se que a realidade alternativa não era de fato isso. Ela representava um lugar atemporal onde os personagens se reencontraram após a morte, redimidos de seus erros e livres “para seguir adiante”. Presume-se que a passagem deles pela ilha tenha sido uma segunda chance em suas vidas para conseguir tal redenção.

         De acordo com esta interpretação, os mistérios da ilha, que permaneceram indecifráveis (pelo menos para mim), não tinham um papel fundamental para o desfecho espiritual da história. De fato, segundo comentários que circulam na imprensa, os roteiristas teriam revelado que os mistérios foram introduzidos no roteiro depois que a trama central já estava definida, o que mostra que eles não eram fundamentais.

         Se isto for verdade, há dois motivos para que algumas pessoas tenham ficado frustradas com o desfecho da série: primeiro, uma história de ficção científica foi transformada numa alegoria com o espiritual; e segundo, fatos ou simbolismos ficaram sem explicação, seja porque não tinham mesmo explicação ou porque informações importantes foram omitidas.

         O clássico de ficção científica “2001, uma odisséia no espaço” teve uma versão em filme e uma em livro. Na versão em filme, que teve maior sucesso que a do livro, algumas informações foram omitidas ou adaptadas para tornar a trama mais enigmática e compatível com o cinema. Quem lesse o livro poderia entender mais facilmente a história e o significado de certas cenas do filme, mas o roteiro do filme manteve a integridade da história e dava ao espectador pistas de que os detalhes e simbolismos tinham relação com a trama.

         Esperava-se de Lost alguma coisa parecida, ou seja, que os fatos misteriosos tivessem relação com a trama e, neste caso, que fossem dadas pistas para decifrá-los. No entanto, a versão espiritual do desfecho parece que não necessita dos detalhes que ficaram sem explicação.

         Ainda tenho uma leve suspeita de que a versão espiritual apenas encobre a verdadeira trama de Lost. Isto, entretanto, só poderia ser esclarecido se os autores da série escrevessem um livro contando a história com os detalhes faltantes. Se isto acontecer, tenho certeza que terá alienígena na parada.

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3 comentários sobre “Terminou Lost. Ou não?

  1. Também aguardo por um novo final. Dada a repercussão da série, os roteiristas já devem estar correndo para escrever o livro que mencionou. Mas para elucidar todos os mistérios, o livro vai ser do tamanho da Enciclopédia Britânica…
    Abraço,
    Caio

  2. Caco, estava conversando com um amigo (Paulo Sussumu), e ele me disse que estava assistindo o Lost, mas parou, porque ele se achava muito burro e não conseguia acompanhar a história. Eu disse a ele que eu havia parado tbem, mas porque eu me achava muito inteligente, pois sabia que os telespectadores iam ficar sem respostas no final, iam ficar todos com cara de bobos. Dito e feito, não conseguiram arrumar um final lógico.
    É chato ser loira e inteligente, mas fazer o que? Deus quis assim.
    Bjs. Ninha

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