Um dia no parque

         Ele morava numa cidade onde nada acontecia, quando numa manhã logo cedo as pessoas se depararam com uma placa: Visitem o Parque de Diversões!

         No meio de uma pequena multidão que já se formara, ele se dirigiu ao local indicado pelo aviso e viu logo que uma grande fila se instalara na entrada do Parque.

         Ele observou, com estranheza, que nem todos podiam entrar e a seleção dos felizardos era feita de uma maneira aleatória, mas a entrada era grátis. Felizmente ele fora sorteado.

         No interior do Parque havia inúmeras atrações, com instruções detalhadas de como aproveitá-las.

         As pessoas, extasiadas diante de tantas novidades, corriam para cá e para lá, procurando aproveitar ao máximo os brinquedos, que lhe pareciam coisa de outro mundo. Com o passar do tempo e diante de tanta diversão ele notou que mal se lembrava da sua rotina enfadonha na cidade.

         Como era de se esperar, logo começaram as confusões nas filas de espera dos brinquedos, precisando da intervenção dos empregados do Parque.

         Algumas pessoas não conseguiam usufruir, sem ajuda de outros, a maioria dos brinquedos. Outros tinham que pedir que o brinquedo em que estavam fosse interrompido porque estavam passando mal e tinham que ser socorridos. Mas a maioria se divertia como nunca.

         Todavia, logo foi sendo criado um clima de desconforto causado pelas pessoas que atrapalhavam o uso normal dos brinquedos. Pessoas mais exaltadas queriam que os que estavam atrapalhando fossem expulsos do Parque, afirmando que eles nem deveriam ter entrado.

         Os responsáveis pela organização, procurando acalmar os ânimos, pediam que todos fossem atenciosos com os menos capazes e, especialmente, com as crianças, e os ajudassem a utilizar os brinquedos, pois todos tinham o direito de usufruir as atrações do Parque.

         Muitas cenas ele presenciou, algumas de solidariedade e outras de completo desinteresse pelos demais, mas a impressão geral era de grande diversão. Ele próprio se divertia muito e, sempre que tinha oportunidade, ajudava os que estavam em dificuldades para lidar com os brinquedos.

         O que lhe chamava a atenção era que, em todos os lugares, cartazes e painéis divulgavam uma grande e última atração na qual as pessoas só poderiam participar quando fossem sorteadas. Última, porque a pessoa que passasse por ela deixaria definitivamente o Parque.

         As pessoas poderiam deixar o Parque quando quisessem, cruzando o portão de saída sem esperar pela última atração, mas eram advertidas de que isso seria uma desfeita ao dono do Parque que as deixara entrar para participar de toda a programação.

         O surpreendente naquele ambiente de diversão era que algumas pessoas não estavam alegres em estar ali e se retiravam do Parque antes de ter participado da tal atração principal. Não eram muitos e na sua maioria eram aqueles que não conseguiam participar dos brinquedos. Mas havia também aqueles que desistiam simplesmente porque não gostavam da experiência.

         Ele divertiu-se o tempo todo, passando de uma atração à outra sem perceber o tempo passar.

         Por um certo tempo ele ainda não queria ser sorteado para a última atração, pois não tinha vontade de deixar o Parque. Mas depois de tanto se divertir começara a ficar cansado e já admitia que seria melhor ser sorteado para finalmente conhecer a grande surpresa.

         Até que em um certo momento ouviu o seu nome nos alto-falantes e também o leu nos painéis luminosos que estavam por toda parte. Finalmente fora chamado.

         Identificando-se, entrou pela porta que dava acesso à atração principal, juntamente com outras pessoas que também foram sorteadas. Depois de separados em dois grupos, o seu grupo foi direcionado para um longo corredor.

         Ao final do corredor tudo parecia impressionantemente iluminado e um grande painel eletrônico foi se tornando mais visível à medida que ele se aproximava.

         Ele finalmente pôde ler: Bem-vindos ao verdadeiro Parque de Diversões! O que vocês viram antes não passou de uma pequena amostra do que vocês terão pela frente!

         A beleza do novo Parque era tal que tudo resplandecia ao seu redor e despertava a sua admiração. Isso tudo, entretanto, impedia que ele ouvisse as vozes que vinham do corredor para onde fora direcionado o outro grupo.

         “Vocês não podem entrar naquele corredor!”

         “Mas tem gente entrando lá!”

         “Se um dia vocês quiserem entrar terão que voltar à entrada do Parque e começar tudo de novo.”

         “Por que isso?”

         “Vocês sabem por que!”

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Um comentário sobre “Um dia no parque

  1. Olá Dias

    O artigo,poderíamos considerar uma crônica,mostra como somos,como vemos a nossa vida, comparando com o parque de diversão.Faz-me lembrar também uma série mostrada na televisão há alguns anos, a “ilha da fantasia”.
    Um abraço e parabéns pelo artigo

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