Efeitos colaterais

          A natureza dotou-nos de características especiais que nos tornaram a espécie dominante na Terra. Algumas dessas características são básicas e são compartilhadas pelas outras espécies que sobreviveram ao processo de seleção natural, como os instintos de preservação da vida e de reprodução. Outras são mais sofisticadas, como a capacidade de se organizar em grupos e o sentido de posse de território, também compartilhadas por algumas espécies. Outras são exclusivas dos seres humanos como a compleição física adequada à realização de tarefas complexas e a consciência, entendida no seu estado mais amplo e desenvolvido, englobando as habilidades cognitivas.

         Fizemos uso dessas características para construir uma sociedade moderna e tecnológica, com recursos para viver uma vida muito mais confortável do que a dos nossos ancestrais. Mas a realização mais importante da raça humana foi construir um conjunto de princípios morais para orientar a nossa vida. São princípios que nos permitem diferenciar o certo do errado e exercer o nosso livre arbítrio de maneira adequada.

         Com tudo isso, deveríamos estar orgulhosos de nossa condição de humanos; afinal estamos caminhando soberanos em nosso planeta. Todavia, não é o que acontece com a maioria de nós. Tudo à nossa volta inspira preocupação e medo de que estejamos numa situação muito instável que pode se degradar rapidamente.

         Por que, afinal, essa preocupação? Quem lê os jornais ou está minimamente informado das coisas que acontecem pelo mundo sabe muito bem do que estou falando. Não falo das catástrofes naturais que, certamente, são uma ameaça ao nosso reinado. Falo das consequências dos atos dos próprios seres humanos e é preocupante saber que esses atos são causados pela nossa própria condição de humanos.

         Uma inspeção mais atenta das características que nos tornaram a espécie dominante mostra que elas são, também, a causa de muitos de nossos problemas. A começar das mais básicas como os instintos de sobrevivência e de reprodução, que foram fortemente enraizados em nós para permitir a preservação da espécie. O instinto de sobrevivência, que impede que coloquemos nossas vidas em risco, também produziu egoístas, aproveitadores, ladrões e assassinos. O instinto de reprodução produziu nos seres humanos um apelo à sexualidade que extrapola o objetivo maior da reprodução. O resultado são os crimes como pedofilia, estupros e todas as violências praticadas em função do sexo, além de seus derivados, como o uso e o tráfico de drogas.

         As nossas características de seres sociais também produzem efeitos deletérios. A vocação para formação de grupos e o sentido de posse de territórios criaram nações e culturas desenvolvidas, mas criaram, também, a marginalização de povos, a intolerância a raças e credos, as guerras e o terrorismo. As nossas características superiores não são exceção nesse processo. Produzimos a tecnologia que provê o conforto da vida moderna, mas que também produz armas de destruição em massa e deteriora o meio-ambiente.

         As perguntas que vêm à mente são: Precisava ser assim? Se, de fato, trata-se do plano de um Criador, ele não poderia ter usado outra estratégia? Em geral, os defensores desse plano argumentam que o homem foi dotado de livre arbítrio para poder discernir sobre o que é certo e o que é errado antes de tomar as suas decisões, e que essa ferramenta é tudo o que ele precisa. Os contestadores acham que o livre arbítrio é insuficiente para enfrentar instintos tão poderosos que durante bilhões de anos vêm moldando os seres vivos na luta pela preservação das espécies. Alguns, mais radicais, suspeitam que o livre arbítrio pode nem mesmo existir e que agimos simplesmente em função das condições que nos cercam. Há, ainda, os que acham que não existe plano algum.

         Este debate é muito antigo e vem à baila com maior ou menor frequência, dependendo da situação em que a sociedade se encontra. Acho que ninguém discorda que os tempos de hoje incitam, como nunca, a retomar este debate à procura de alguma explicação para a condição humana. Como sempre, é quase certo que não haverá uma resposta convincente. Porém, a insistência nisso tem uma razão muito simples: se houver de fato um plano, ele certamente inclui essa discussão como um meio de aperfeiçoar o ser humano; se não houver, ainda assim precisamos aprender a lidar com os efeitos colaterais desses nossos instintos tão primitivos para ter algum alento quanto ao futuro da raça humana.

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5 comentários sobre “Efeitos colaterais

  1. Olá Dias(Caco)

    O artigo não aponta uma solução, mas uma reflexão que se faz necessária nos dias de hoje.Continue com o seu trabalho e sucesso.
    Um abraço

  2. Eis uma boa questão a ser pensada. Esses dias estava assistindo a uma entrevista no TV Escola, se não me engano, quando o entrevistado soltou uma exclamação: “a gente ainda se mata!”
    Pensando nisso, surgiu-me uma inquietação: será que de fato estamos evoluindo? Quais indícios nos apontam que estamos evoluindo?
    Em resumo, acho que devemos escolher qual a pergunta a fazer. Penso na seguinte: a humanidade está evoluindo em sua humanidade?
    Matamos por território, por poder ou por riqueza. As guerras do século XX e da entrada do XXI foram isso em escala industrial, no nível global, e assistimos a isso todos os dias no jornal, no nível individual.
    Será que seremos constantemente reféns dos “mil naturais conflitos que constituem a herança da carne”?
    Hoje estou certo de que somos. Será que conseguiremos desse instinto nos sobressairmos?
    Um forte abraço!

    • Caro Venâncio, Acho que há duas maneiras de se entender o termo evolução na expressão evolução das espécies. A primeira é a versão agnóstica de que a evolução é uma adaptação às condições ambientais e, portanto, o mais evoluído é o melhor adaptado, não necessariamente o mais complexo. A segunda deriva daqueles que crêem em uma divindade e, conseqüentemente, num plano para a existência humana. Ela não contradiz a primeira, mas pressupõe que as adaptações levam a um ser cada vez mais complexo e aprimorado, isto é, ela tem uma direção preferencial no sentido do aperfeiçoamento do ser humano. É preciso, portanto, fazer parte deste último grupo para aceitar, como você diz, que a humanidade está evoluindo em sua humanidade. Eu acredito nisto, mas, em vista do que ocorre no mundo, ainda não entendo bem porque tal plano deva ser implementado de uma forma tão tortuosa.

      Abs.

      Oscar

  3. Olá Oscar!
    Concordo que podemos pensar a evolução sobre os dois prismas, razão pela qual sugeri pensarmos a questão da “humanidade evoluindo em sua humanidade”, justamente porque sobre um prisma científico, estou convencido de que estamos de certa forma evoluindo.
    Agora sobre um plano espiritual, estou certo de que ainda não.
    A razão disso ser tortuoso, entendo que é justamente em razão da nossa herança animal. Estendo isto como um paradoxo ao qual estamos atrelados: somos racionalmente melhores equipados do que qualquer computador e carregamos uma carga de instinto animal.
    Eu acho que é esse paradoxo que também nos torna tão preciosos e saber lidar com ele seria o nosso desafio diuturno e tortuoso, em busca da felidicade.

    Um forte abço!

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