O mistério da consciência

         Como a consciência se manifesta em nossas mentes? Que espécie de processo mental é responsável por nos dar a sensação de que existimos e de quem somos? Os animais têm a percepção da própria existência? Será possível um dia construir uma máquina consciente?

         Estas e outras questões relacionadas à consciência têm desafiado os neurocientistas e, acredito, intrigado muitos leigos no assunto. Há algum tempo eu me interesso por este assunto e já li alguns livros sobre isto, conforme relatei no artigo intitulado “Resenha II – A formação da consciência”, neste blog. Um dos mais interessantes que li, cujo título é “O mistério da consciência”, foi escrito por Antonio Damásio, um neurocientista português que trabalha nos EUA. Nele, o autor propõe um esquema para explicar o surgimento da consciência que eu procurarei resumir neste artigo. Qualquer falha em transmitir os conceitos do livro deve-se ao meu pouco conhecimento do assunto.

         Em primeiro lugar, aprendi que a Ciência ainda tem muito a explicar sobre os processos mentais. Isto se deve, provavelmente, ao fato de que até o meio do século XX os trabalhos científicos sobre emoções e outras atividades do cérebro eram considerados má ciência. Esse tipo de preconceito atrasou as pesquisas sobre o papel do cérebro em processar as emoções. Como veio a ser constatado mais tarde, as emoções têm um papel importante no entendimento da consciência.

         Uma emoção é a reação do nosso corpo quando confrontado com um objeto – um objeto aqui pode ser um objeto real, ou uma imagem, som, cheiro ou qualquer outra coisa capturada por nossos sentidos, ou qualquer fato trazido por nossa memória. Uma coisa é a emoção como uma reação de nosso corpo, outra coisa é o “sentir a emoção”. O sentir a emoção acontece quando o cérebro constrói uma representação das mudanças causadas pela emoção em nosso corpo, por meio de padrões neurais. Neste ponto, o organismo está sentindo a emoção.

         Todavia, se o processo parasse aqui, o organismo seria capaz de sentir a emoção mas não de estar ciente dela. Em outras palavras, não haveria “ninguém” sentindo aquela emoção. Muitas espécies de animais encaixam-se nessa situação; eles não são capazes de reconhecer seus sentimentos. O que estaria faltando a eles? O componente que falta é a consciência, i.e., a capacidade de saber que aquele organismo que está sentindo a emoção pertence a nós e que nós somos aqueles que sentimos o que sentimos. Isto é o equivalente a estar cientes de nós mesmos. Esta circularidade pode parecer estranha, mas ela é inevitável quando nos referimos à nossa própria mente. Woody Allen certa vez brincou sobre isto quando disse: “Sempre achei que o cérebro fosse o principal órgão do corpo, até que um dia me dei conta de “quem” é que estava me induzindo a pensar assim.”

         Para entender como a consciência emerge no cérebro, nós temos, primeiro, que entender qual é o papel do cérebro em manter as funções vitais do corpo. Para executar essa tarefa o cérebro mantém uma representação neural do corpo de forma análoga à que um painel de controle eletrônico utiliza para representar o sistema que ele controla. Através dessa representação neural o cérebro pode monitorar e regular as funções vitais relacionadas aos órgãos internos, os músculos, estruturas ósseas e outros sistemas, por meio de reagentes químicos e sinais elétricos. Obviamente, essas atividades são levadas a cabo pelo cérebro sem que tomemos ciência delas, i.e., num nível de inconsciência.

         Essa representação do corpo é chamada de “proto-self” e, conforme dito, ela atua no nível do inconsciente. Quando o organismo é confrontado com um objeto o proto-self é modificado por ele no ato de perceber tal objeto. Os padrões neurais representando o objeto e o proto-self alterado são copiados em uma outra região do cérebro como uma espécie de padrões neurais de segunda ordem. A nova representação do objeto e do proto-self alterado por ele é a história escrita no cérebro que nos conta que estamos interagindo com tal objeto. Isto é a consciência em funcionamento.

         De fato, isto é chamado de consciência central e ainda não é um privilégio dos seres humanos pois muitas espécies superiores também dispõem dela. Por outro lado, os humanos têm a capacidade de adquirir e manter dados sobre o seu passado e o seu futuro planejado, num banco de dados chamado de memória. Essa capacidade foi fortemente aperfeiçoada pelo desenvolvimento da linguagem. Quando a memória foi adicionada ao esquema descrito acima, a consciência central evoluiu para uma consciência estendida.

         Agora, a consciência estendida nos permite não somente ter ciência instantaneamente de quem somos, mas, também, manter o conhecimento do que fomos no passado e do que planejamos ser no futuro. Isto, sim, é um privilégio dos seres humanos.

         Simples assim.

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