Deus, um delírio? – Parte II

          Depois que a teoria da evolução das espécies, do inglês Charles Darwin, tornou-se popular, começou uma disputa entre evolucionistas e criacionistas para saber com quem estava a verdade. Os primeiros são os adeptos da teoria de Darwin, que acreditam que as espécies vêm se modificando ao longo do tempo, desde o aparecimento do primeiro ser vivo na Terra, enquanto que os criacionistas acreditam que Deus criou todas as espécies como elas são hoje.

         Na comunidade científica, a teoria de Darwin é amplamente aceita. Os registros fósseis de espécies extintas, assim como as diferenças graduais nos seres de espécies diferentes ainda existentes, que trazem vestígios de ancestrais comuns, constituem evidências claras de que a teoria está correta e, até o momento, não foi encontrado fato algum que a refute. E nunca será, segundo os cientistas. Já entre os leigos não existe unanimidade. A descrença na teoria ocorre principalmente entre os religiosos que vêem nela uma confrontação com os ensinamentos dos textos sagrados. O pivô da discórdia é certamente a implicação, pela teoria, que o homem não foi criado como ele é, mas evoluiu de outras espécies. Isso tiraria do homem o papel de um ser especial, em torno do qual Deus teria criado todas as outras espécies e coisas existentes no mundo. Foi, para os religiosos, um golpe maior do que saber que a Terra não era o centro do universo, o que acontecera séculos antes.

         No geral, meu entendimento é que, por um lado, os criacionistas são irredutíveis em sua posição de não aceitar a teoria da evolução das espécies por achar que ela é totalmente incompatível com a existência de Deus e, portanto, não pode ser verdadeira. Por outro lado, os religiosos que aceitam a teoria da evolução – acho que são muitos – o fazem com certa relutância e preocupação, dizendo ser necessário separar o espiritual (religião) do material (ciência), evitando, assim, uma confrontação com as descobertas da ciência. No fundo, também temem que a aceitação da teoria, de alguma forma, possa contrariar a sua fé.

         A teoria da evolução das espécies é um dentre vários avanços da ciência que desafiam as interpretações literais dos textos sagrados. Este fato provocou o surgimento do termo “Deus das lacunas”, para caracterizar um deus que cada vez mais é despojado das suas realizações para ficar apenas com aquelas que a ciência ainda não consegue explicar. Que outras descobertas virão para diminuir ainda mais o papel de Deus? Os religiosos encontram-se de fato numa posição muito desconfortável, talvez porque não estejam utilizando os argumentos mais adequados.

         A separação entre o espiritual e o material não pode ser um caminho para acomodar a situação. Afinal, se Deus existe, deve existir um vínculo entre ele e o indivíduo, seja de que natureza for, para dar sentido à relação criador/criatura. Esse vínculo é chamado comumente de “alma” e a sua existência deve ser a premissa básica para a hipótese da existência de Deus. De alguma forma a alma influencia (se não o determina por completo) o comportamento das pessoas – uma vez que não faria sentido uma alma dissociada do indivíduo – e assim fica caracterizado o vínculo entre o espiritual e o material.

         Uma vez admitido que esse vínculo é condição necessária para a existência de Deus, a ciência poderá investigá-lo, esmiuçando corpo e mente do indivíduo à sua procura. Dessa investida poderá resultar uma de três alternativas: 1) a alma será identificada e entendida, ou 2) chegar-se-á a um “dead end” em que o avanço do conhecimento esbarrará num mistério insondável, ou 3) nada será encontrado que se assemelhe a uma ligação com o espiritual.

         O primeiro dos resultados é o que a grande maioria da humanidade espera um dia ver realizado. O segundo resultado deixará o problema latente, pois a ciência não se contentará com a existência de mistérios. O terceiro dará a vitória aos que não acreditavam desde o início no sobrenatural.

         Todavia, a fragilidade desta análise é que ela supõe que o problema possa ser abordado pela ciência como qualquer outro fenômeno terreno, sujeito aos procedimentos padrões da investigação científica. Uma observação mais atenta das alternativas acima revela que nenhuma delas tem uma conclusão minimamente reconhecível. Mesmo a última delas, que supostamente descarta a existência de Deus, não seria tão taxativa. A alma poderia ainda não estar presente no homem porque ele ainda não teria atingido a maturidade necessária no processo de evolução. Afinal, o aparecimento de um ser consciente é ainda muito recente na história da evolução das espécies. Mesmo que não houvesse sinais da existência de uma alma, quem garantiria que ela não viesse a existir mais tarde, a exemplo do que aconteceu com a consciência.

         A prova da existência ou não de Deus pode, portanto, ser um desafio insuperável, mesmo para uma ciência do futuro com recursos hoje inimagináveis. Além de complexa, há ainda a agravante de que essa questão possa nunca vir a ser alvo de uma investigação científica direta, a menos que o conhecimento mais profundo dos processos mentais possa revelar fatos que motivem os cientistas a abordar a questão espiritual. Como um corolário disso tudo, as repercussões que as descobertas científicas possam ter para as religiões e seus textos sagrados, ainda que desagradem os religiosos, não poderão nunca ser entendidas como provas da inexistência de Deus.

         O que se conclui, então, desta discussão? Várias coisas: 1) De um ponto de vista racional, o espiritual não está separado do material, o que permite à ciência, ao menos teoricamente, investigar a existência do elo entre eles; 2) Ainda assim, a prova da existência ou não de Deus é um grande desafio para a ciência, que poderá se revelar intransponível, mesmo para uma ciência muito desenvolvida; 3) Os crentes em Deus não devem se sentir ameaçados com as descobertas científicas ainda que elas venham a contradizer os ensinamentos dos textos sagrados. Esses textos têm grande significado para a consolidação da fé de seus seguidores, mas não poderão nunca servir de referência para testar a hipótese da existência de Deus; 4) Os indivíduos não devem ter a sua crença diminuída por conceitos pejorativos como o do Deus das lacunas. Ainda que a ciência venha a provar que tudo o que existe no universo tenha sido criado por obra do acaso, restará a lacuna mais importante a ser preenchida, ou seja, quem teria iniciado tal processo; e, finalmente, 5) Fé e busca do conhecimento devem continuar a exercer os seus papéis de forma independente no sentido de contribuir, cada uma a seu modo, para aperfeiçoar a raça humana.

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5 comentários sobre “Deus, um delírio? – Parte II

  1. Estive um tempo distante dos debates construtivos deste blog porque atualmente estou lendo um livro emprestado por um amigo. O livro é “Criação Imperfeita” do filósofo e físico (BRASILEIRO – um orgulho!), Marcelo Gleiser. Ainda não terminei, mas acho que posso dar uns palpites.
    Deixo o comentário aqui justamente porque se discutiu o “Deus das lacunas” e o espaço das ciências. Não vou entrar no mérito da fé, mas sim deixar uma questão que ficou para mim.
    Bom, o cientísta brasileiro sustenta que a nossa busca pela unificação das teorias das forças pode ser entendida como uma herança humana do monismo, da nossa busca pelo uno, belo e perfeito.
    Contrapondo a essa busca humana, contudo, ele faz um exame detalhado do estado da ciência e das conquistas dela até o momento, em nenhum instante desencorajando pesquisas científicas, mas sim fazendo um exame maduro do seu estado na vanguarda.
    Todas as descobertas até o momento constatadas pela ciência definem que o universo conhecido é consequência de uma série de desequilíbrios.
    Por exemplo, a matéria só existe de forma complexa (nós), porque na criação houve um desequilíbrio de partículas a ocasionar a composição das moléculas complexas. Se houvesse o equilíbrio no big bang entre as matérias que hoje são conhecidas – matéria e antimatéria-, ambas teriam se aniquilado e não haveria universo.
    O exame do autor parte do big bang até os dias de hoje, demonstrando que as observações científicas até agora demonstraram que as coisas são do jeito que são mais em razões de situações de desequilíbrio do que por razões de simetrias.
    Para o meu desapontamento, o experiente físico conclui que jamais teremos o acesso a todas informações para que a ciência possa concluir decisivamente. Haverá sempre uma lacuna de mistério.
    A questão que ficou para mim foi a seguinte: se somos resultados de desequilíbrios da natureza (aqui socorro-me também de Darwin: evoluir significa um estado constante de imperfeição, uma vez que sempre estaremos evoluindo, porque não seremos perfeitos e acabados), necessariamente somos um acaso resultado de uma imperfeição do universo.
    Porque muitas vezes podemos analisar a perfeição do criador a partir de sua criação, indago-me: diante de tantos desequilíbrios necessários ao surgimento do comos como vemos, como fica o nosso Deus, uno, belo e perfeito?

    • Caro Venâncio,
      Também comprei o livro Criação Imperfeita mas ainda não o li. Quem me indicou foi um amigo que temos em comum – José Liberato. Gostei dos seus comentários e, se bem entendi a sua pergunta, acho que uma possível resposta seria: Deus escreve certo por linhas tortas. Isto tem ligação com o próximo texto que vou publicar “Efeitos colaterais”.
      Abs.
      Oscar

  2. Essa questão da existência ou não existência de Deus me “atormenta” há muito tempo. Já passei por “quente” / “frio”, várias vezes. Hoje estou “morno” nesse assunto. Parei que quer entender algo que está muito acima da minha capacidade.

    Creio que antes de se discutir a existência ou não de Deus, uma pergunta parece que precisa ser respondida: O que é Deus? Hoje acredito que responder essa questão já um grande desafio. Dependendo da resposta podemos dizer que Deus não existe ou, podemos dizer que tudo isso que estamos descobrindo nestes últimos séculos, Ele havia previsto e projetado há muito tempo, e nós, pequenas cabeças pensantes, presunçosos como nada igual, só agora é que estamos vendo.

    Eu pessoalmente já desisti de buscar a resposta para “O que é Deus”. As definições normalmente aceitas me parecem pobres e cheias de furos. Assim, creio apenas existe uma inteligência, muito superior a nossa, que coordena este mundão véio. Se é bom ou não, se gosta da gente ou não liga para estes “pobres” mortais, se misericordioso ou não, se é onipotente e onipresente, não tenho idéia. Sei apenas que Deus é Deus e só.

    Acredito na reencarnação e que estamos rodeados de espíritos amigos ou inimigos, evoluídos ou atrasados, e eles podem nos ajudar ou nos atrapalhar bastante. Para mim, espíritos descarnados são mais “concretos” (ou mais acessíveis para a minha cabeça) do que o conceito de Deus. Deus existe, mas está muito distante do que eu consigo entender. Sei que tudo isso deve parecer mui loco. Mas posso garantir que existem muitos indícios para pensar que não devo estar muito longe da verdade e assim vou tocando esse “barco”.

    Um grande abraço
    Cinquini

    • Caro Ayrton – Você tem razão quanto à necessidade de definir Deus em primeiro lugar. Algumas pessoas acham que Deus é a própria natureza e, neste caso, nem é preciso provar a sua existência. Parece que Einstein tinha essa opinião. Como você, eu também não tenho uma boa definição para Deus, mas acho que ele é uma inteligência superior que criou o universo e que não interfere no andamento das coisas, pelo menos no dia a dia das pessoas. Como uma inteligência superior, ele certamente tem um plano, mas esse plano é inacessível a seres como nós, no início (acho) da história da evolução. Quanto ao espiritismo, não sou um adepto dele, mas, por outro lado, não deixo de ver nele uma alternativa interessante para o processo de evolução da natureza humana. Assim, evolução física e espiritual se complementariam. Em resumo, tudo, ainda, parece ser um grande mistério. Um grande abraço. Oscar Dias

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