Revivendo Gaia

          A filosofia do Idealismo Monista, cujas origens remontam a Platão, tem a suas bases no conceito de que a consciência é a origem de tudo no mundo, seja das coisas abstratas ou das materiais. Tudo é gerado pela consciência.

         Na década de 70, o cientista britânico James Lovelock, com contribuição da bióloga americana Lynn Margulis (esposa de Carl Sagan), enunciou a Hipótese Gaia, segundo a qual a Terra é um superorganismo vivo que cria e controla as condições para a sobrevivência dos seres que a habitam. O nome Gaia foi utilizado como referência à deusa grega que representa a Mãe Terra.

         Mais recentemente, o físico indiano Amit Goswami criou o conceito de um universo autoconsciente (V. Amit Goswami – O universo consciente – Ed. Aleph – 2008), segundo o qual uma consciência cósmica é responsável pela manifestação de todos os fenômenos reais. Segundo ele, suas ideias estão respaldadas na Física Quântica (ou, talvez, resolvem o paradoxo dela), que estabelece que os eventos, antes de se concretizarem, estão condicionados a uma onda de possibilidades que só pode se traduzir em realidade na presença de um observador. A consciência cósmica faz o papel desse observador.

         Os conceitos acima estão apresentados em uma forma bastante simplificada mas suficiente para motivar os comentários a seguir. As três teorias envolvem conceitos que não estão testados e aceitos pela ciência, não obstante as alegações do físico Goswami de que experimentos já forneceram evidências a favor de sua teoria. (Sua entrevista para o programa Roda Viva revelou que nem todos os cientistas que o entrevistaram compartilhavam seu otimismo com a teoria do universo autoconsciente.)

         O conceito do universo autoconsciente parece que junta os dois anteriores. Ele aproveita a excentricidade da Física Quântica – com as suas ondas de possibilidades que só podem ser dirimidas por um observador – para introduzir o conceito da consciência cósmica no papel desse observador, englobando as ideias anteriores da filosofia Monista e da hipótese Gaia. Essa consciência cósmica, segundo Goswami, pode ser associada à ideia de Deus, com o poder de comandar todos os eventos do universo ao fazer colapsar as ondas de possibilidades em fatos reais. Os defensores dessa teoria dizem que Deus foi novamente inserido na ciência, após ter ficado fora dela no último século.

         A consciência, seja do indivíduo ou cósmica, tem um papel central nesta discussão. Ela é um tema recorrente neste blog, pois, afinal de contas, ela é a ferramenta fundamental que utilizamos para discutir os problemas que nos cercam. Neste tema, todavia, ela parece assumir um papel transcendental. É possível imaginar uma consciência cósmica? Como as consciências individuais se encaixam nesse conceito? Essa consciência cósmica pode assumir o papel do observador exigido pela Física Quântica? De fato, o conceito do universo autoconsciente parece ser difícil de ser digerido.

         A Física Quântica já foi utilizada muitas vezes para dar sustentação às mais bizarras teorias de auto-ajuda, com a justificativa de que o não-determinismo que ela introduz nos eventos que envolvem as partículas microscópicas pode ser aproveitado pela mente humana para fazer acontecer aquilo que nos interessa. Em geral, são tentativas de tornar científicas as práticas do “pensamento positivo”, isto é, de pensar e desejar que algo bom aconteça para que de fato ele aconteça. Não quero dizer que essas abordagens sejam danosas ao seres humanos; ao contrário, elas podem ter alguma eficácia, ainda que por meio do efeito placebo. Mas estão longe de ser teorias científicas.

         Será que se pode dizer o mesmo da teoria do universo autoconsciente? Um ponto que considero altamente desfavorável a essa teoria é que ela transporta para o macrocosmo os preceitos que a Física Quântica estabelece para o microcosmo, ou seja, para as partículas fundamentais, como elétrons, quarks etc. Um observador (ou um experimento) pode decidir se um elétron é uma onda ou uma partícula, mas isto é muito diferente do que decidir se deve chover ou não. Por outro lado, uma consciência cósmica onipotente poderia atuar no microcosmo de forma a obter o resultado desejado no macrocosmo. Só precisaria, para isso, ter a capacidade de prever todas as perturbações necessárias nas partículas para gerar o evento desejado no macrocosmo. Fácil? Para Deus, sem dúvida!

         Enfim, quando pessoas de alto gabarito, como os cientistas mencionados, “desconfiam” que a consciência tem poderes que até hoje não entendemos, é necessário dar a eles um voto de confiança. Mas a boa prática científica, que tanto contribuiu para o desenvolvimento da ciência até hoje, não pode ser deixada de lado.

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2 comentários sobre “Revivendo Gaia

  1. Como ela abre esse leque de infinitas possibilidades, você decide o que quer como verdade ! Tudo é possível se a consciência permitir que assim seja.

  2. Tenho acompanhado os trabalhos do Dr. Amit Goswami desde que me interessei em investigar a natureza da realidade, buscando subsídios na Ciência e na Filosofia. Embora eu tenha formação científica com duas graduações e um mestrado, não encontrei na Academia as respostas que esperava encontrar lá, e o conhecimento advindo da Universidade só serviu mesmo para formação profissional. Então, com o que aprendi restou continuar procurando por conta própria, juntando os conceitos científicos formais às ideias de grandes pensadores a respeito do tema. Nesse sentido, o prof. Goswami tem sido para mim um exelente referencial para o entendimento de como a realidade se presentifica, quais as limitações da Ciência e da objetividade nesse campo e de como acolher como contribuição os conceitos de grandes pensadores a respeito da natureza.
    A porção científica de seus trabalhos convergem com as publicações de R. Sheldrake, W. Smith, D. Bohm, C. Rovelli e F. Capra. Também existe um certo alinhamento da porção filosófica de suas idéias (incluindo a metafísica) com as publicações de Platão, de Aristóteles, dos escolásticos medievais, de Spinoza e é claro das grandes tradições religiosas orientais. Além disso, tendo formação religiosa hindu privilegiada pela proximidade de seu pais que era um guru indiano e com formação acadêmica em Física Quântica, o autor parece ter credenciais suficientes para discutir o assunto como tranquilidade em um texto que cobre ciências cognitivas, neurociência, psicologia, filosofia e a transcendência das tradições esotéricas.
    Particularmente achei que seus trabalhos foram muito pouco explorados pelos componentes da bancada quando de suas duas entrevistas que deu no programa Roda Viva, principalmente porque as bancas foram pessimamente escolhidas, sendo compostas basicamente por jornalistas (alguns de divulgaçao científica) e ocasionalmente por pessoas com formação (mas não atuação) na área científica. Ou seja, não se pode afirmar que ele foi entrevistado por cientistas, mas por curiosos, mesmo que bem intencionados. Nesse sentido, a baixa adesão dos seus entrevistadores (se é que havia algum cientista lá) à teoria do universo autoconsciente tem inexpressiva relevância, principalmente porque estamos no Brasil.
    Uma grande contribuição do idealismo monista proposto pelo autor reside no fato de que ele demonstra com maestria como esse princípio se ajusta aos resultados dos inúmeros experimentos realizados com objetos quânticos pelo mundo. Embora os resultados não habilitem ninguém no plano macroscópico a levitar com a força da mente, no plano microscópico as conclusões são robustas os bastante para refutar a objetividade forte, o determinismo causal e a localidade, as bases metafísicas que a ciência atual usa para interpretar os fenômenos. Considerando que a natureza é a mesma em qualquer escala, essa mudança de paradigma traz consequências fortíssimas sobre a maneira como, racionalmente, podemos interpretar como a realidade se manifesta ao observador. E isso, absolutamente não é pouca coisa.

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