Deus, um delírio? – Parte I

          Eu não sou adepto do espiritismo e mal conheço as bases ou princípios dessa doutrina. Entretanto, sempre fui curioso por temas que tratam de espiritismo. Na literatura, gostei muito do livro “Fernão Capelo Gaivota”, que, acho, tem muito a ver com essa crença. No cinema, gostei de filmes que tratam de espiritismo (no sentido literal), como “O sexto sentido”, “Amor além da vida” e “Os outros”, embora reconheça que não se tratam de obras primas. Assim como eu, imagino que este tema atrai muitas outras pessoas, religiosas ou não. A procura de uma forma de comunicação com alguém de um outro “mundo”, seja esse alguém um espírito ou um ser vivo como nós (V. Guerra dos mundos, neste blog) é quase uma obsessão do ser humano.

          Na verdade, não quero falar aqui especificamente do espiritismo. O parágrafo acima serve apenas para motivar uma discussão sobre algo mais genérico que está enraizado em nossas culturas, desde os nossos mais remotos ancestrais, ou seja, as crenças, religiosas ou não, em algo que está fora do nosso mundo, no sobrenatural. Usei o espiritismo como exemplo porque acho que ele é uma das mais fortes manifestações dessas crenças. Entretanto vou utilizar, a partir de agora, o nome genérico de religião para todas essas crenças, embora sabendo que eu possa estar cometendo um erro de conceito. Espero que esta simplificação não invalide o que será dito a seguir.

          Qual é a razão para que a religião esteja tão enraizada na grande maioria das culturas, desde tempos remotos? Richard Dawkins (ele de novo!) procurou dar uma resposta a esta pergunta usando o Darwinismo, em seu livro “Deus, um delírio!”. Ele começou perguntando: o que poderia haver na religião que desse ao indivíduo religioso uma vantagem competitiva no processo da seleção natural? Não achando uma resposta convincente para esta pergunta, ele sugere que a religião é um subproduto de uma outra característica humana, esta sim possuidora de uma vantagem competitiva no curso da evolução das espécies. Essa outra característica é aquela possuída pelas crianças de ouvir e aceitar cegamente os conselhos dos mais velhos (especialmente dos pais). Essas crianças têm mais chances de evitar as situações de perigo a que a natureza as sujeita e, portanto, vivem o suficiente para gerar descendentes e espalhar os seus genes através de outras crianças que também acreditarão cegamente nos idosos. Daí a adquirir uma crença de seus pais, como a religião, vai apenas um pequeno passo, mesmo que essa crença não seja fundamental para a sua sobrevivência. É por essa razão que Dawkins classifica a religião como um subproduto e não um fator essencial para a sobrevivência do seu portador no processo da seleção natural. Mesmo nessa condição, ela é passada de pai para filho e se espalha pelas gerações futuras.

          Sem dúvida, é uma explicação interessante. Mas ela não é aceita unanimemente pelos biólogos evolucionistas, que têm outras explicações alternativas. Além do mais, ela necessita da hipótese de que uma mutação aleatória tenha produzido um primeiro ser humano com uma crença no sobrenatural para que, então, essa crença pudesse ser espalhada pelo processo descrito.

          A presença maciça das religiões nas diferentes culturas parece, portanto, uma questão em aberto, do ponto de vista darwinista. O mesmo pode ser verdade do ponto de vista antropológico, embora eu não me sinta muito seguro em fazer tal afirmação. De qualquer modo, os cientistas, sejam pertencentes a uma área ou outra, não cogitam em procurar uma explicação metafísica para a presença da religião na mente humana.

          Visto que se trata de uma questão em aberto, eu, que não sou cientista, posso especular livremente sobre outras explicações. E, de fato, tenho uma teoria. Vou chamá-la de teoria da conspiração ou da dissimulação, sobre a qual já falei rapidamente no artigo “Guerra dos sexos”, embora sem citar este nome. Essa teoria propõe que a natureza é dissimulada ao estabelecer os seus desígnios ou, falando de outra forma, ela é conspiratória contra ela própria. Ao mesmo tempo em que ela parece tão indiferente aos sofrimentos e prazeres dos seres que ela colocou no mundo, ela age sub-repticiamente dotando uma das espécies de uma capacidade extraordinária de enxergar a si próprio e o mundo que o cerca. Já falei dessa capacidade e voltarei a falar dela inúmeras outras vezes: a consciência. Não a consciência geralmente entendida como a qualidade de fazer o que é certo. Mas a consciência, entendida num sentido mais amplo, como a capacidade mental do ser humano de tomar ciência da própria existência e fazer perguntas a respeito do mundo em que vive.

          Quando falei sobre a “Guerra dos sexos” quis mostrar que a consciência foi uma ferramenta introduzida pela natureza para dotar o homem de uma capacidade de reparar injustiças provocadas pela própria natureza (se ele ainda não está usando adequadamente essa ferramenta, isto é assunto para outra discussão). A religião parece fazer parte desse mesmo pacote. Ao nos dotar de consciência, a natureza incluiu nela uma característica intrínseca (built-in) que é a de se interessar pelo sobrenatural, de abraçar crenças em deuses que conduzem os nossos destinos, em espíritos com quem queremos nos comunicar, enfim, de nos reunir em torno de religiões. Essa característica, embutida em nossas mentes pela natureza, age como um vírus apto a se espalhar por toda a raça humana, reunindo mais e mais adeptos.

          Neste ponto, algum desmancha-prazer poderia argumentar que não seria necessária esta explicação metafísica para o modo como a natureza executa o seu plano, qualquer que seja ele. A explicação darwinista também se prestaria a isso. Afinal de contas, qualquer que tenha sido a maneira como a natureza introduziu as religiões em nossas mentes, ela estará levando avante o seu plano. São, portanto, duas explicações que levam ao mesmo resultado. Qual delas é a mais plausível?

          Aqui vou fazer um parêntesis para falar de uma regra científica geralmente usada para escolher entre teorias alternativas. Os que são familiarizados com ciência conhecem essa regra, chamada de “navalha de Occam”. William de Occam, um teólogo inglês do século XIV, postulou que: se há duas teorias concorrentes, em completa condição de igualdade, a teoria mais plausível deve ser a mais simples. De acordo com a navalha de Occam, as teorias conspiratórias devem ser sempre descartadas, diante de outras teorias, porque, via de regra, elas pressupõem um plano altamente engendrado e complexo. Neste caso, a teoria baseada no darwinismo deveria ser a escolhida por depender apenas do acaso e, portanto, ser mais simples.

          Evidentemente, eu não estaria falando sério se propusesse utilizar a navalha de Occam aqui, pois a teoria da conspiração da qual falo, não sendo científica, não poderia nunca se submeter ao escrutínio dos cientistas. Felizmente, porque se não fosse isso ela teria sido descartada rapidamente. Deixando de lado a navalha de Occam, eu afirmo que quando duas explicações para um mesmo fenômeno são possíveis, mas nenhuma delas comprovada, tem mais apelo aquela que apresenta traços mais enigmáticos, mais misteriosos. Não é exatamente desse aspecto da natureza humana que estamos falando? Se essa discussão fosse o enredo de um filme, qual das versões agradaria mais ao público: aquela em que no final a história se revelasse mera obra do acaso (a explicação darwinista) ou aquela em que uma mão invisível fosse o articulador da trama (a explicação metafísica)? Não tenho dúvidas de que seria esta última.

          Para completar a teoria da conspiração é necessário identificar um propósito para ela. Uma conspiração é, por definição, um plano, e um plano tem um propósito. Que propósito teria a natureza ao nos dotar dessa propensão de ser religioso? Os que têm fé sabem que propósito é esse. Por sua vez, os cépticos acham que esse propósito não existe e que a natureza atua ao acaso, e só aceitam discutir o assunto se lhes forem mostrados fatos que não possam ser explicados pela ciência. Os demais são totalmente alheios a essa discussão. De que lado você está?

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4 comentários sobre “Deus, um delírio? – Parte I

  1. A ciência assassinou Thor!

    O tema da religião é bem polêmico. Comecei no catolicismo lendo o “novo testamento”, passei do agnosticismo com Carl Sagan “O mundo assombrado pelos demônios”, para o ateísmo, após Richard Dawkins “Deus um delirio”, e hoje decididamente não sei o que pensar sobre o assunto.

    Mas algo com o que me deparei foi a perda de espaço das religiões na medida em que nossa ciência avança nas explicações sobre a natureza. A religião entra numa curva descendente de explicações na medida em que ascende as explicações científicas sobre os fenômenos naturais. Thor era o poderoso Deus nórdico do trovão. Hoje o trovão é o som natural ocasionado pela expansão abrupta do ar em razão do calor produzido por uma descarga elétrica na atmosfera.

    Essa constatação, contudo, não afeta o que se observa no ser humano com exclusividade: a fé. Seguindo a teoria da conspiração, se a natureza nos produziu com essa consciência da natureza, porque ela não o fez com suficiência para nos dotar das ferramentas necessárias para compreende-la integralmente? Será que é justamente para sermos religiosos? Estou certo de que explicação científica há e ela certamente é uma fórmula matemática, mas até hoje não pudemos alcançá-la.

    Tanto Sagan quanto Dawkins dizem que isso não é razão para sermos religiosos, ou seja, se a ciência não explica não quer dizer que a religião deva explicar. Mas a minha questão não é se a ciência explica, mas sim se o homem é naturalmente dotado da capacidade para obter essa explicação científica. Se não for e não aceitarmos a explicação religiosa, então estamos condenados a não obter explicação alguma?

    Diante dessas indagações, por enquanto estou com Espinosa. A primeira proposição do seu livro sobre a Ética é a existência incondicional de Deus, para concluir em seu ensaio que o nosso designio é a felicidade suprema:

    “Nada, certamente, a não ser uma superstição sombria e triste, proíbe que nos alegremos. Por quê, com efeito, seria melhor matar a fome e a sede do que expulsar a melancolia? Este é o meu princípio e assim me orientei. Nenhuma potestade, nem ninguém mais, a não ser um invejoso, pode comprazer-se com minha impotência e minha desgraça ou atribuir à virtude nossas lágrimas, nossas soluções, nosso medo, e coisas do gênero, que são sinais de um ânimo impotente?” [Espinosa, Ética, IV, proposição. 45, esc. 2 (trad. Tomaz Tadeu)].

    Se há razão para uma religião, ela só pode pretender a felicidade suprema de seus seguidores, que se alcança, de forma muito resumida, segundo Espinosa, quando o indivíduo se identifica com o ser, agir e existir do que ele chama de Substância. Assim, acredito que se buscamos alcançar essa felicidade, posso dizer que somos religiosos.

    Por enquanto estou com essa explicação, mas ainda não completamente convencido.

    • Caro Venâncio, Seus comentários têm enriquecido muito os textos do blog. Obrigado. Suas dúvidas sobre este último assunto são cruéis e eu não sei como responder a elas a contento. Acho que a natureza dotou (ou ainda vai dotar) o homem de capacidade para conseguir as explicações que ele precisa. Se ele vai conseguir ninguém sabe. Na própria ciência, vez ou outra, cogita-se que estamos próximos de saber tudo, mas logo vem um desmancha-prazer e diz que não sabemos nada. Não foi assim com a mecânica quântica? Como você mesmo diz, a ciência vai ocupando o espaço da religião, transformando conceitos metafísicos em conceitos cientificamente explicáveis. Até que ponto isto vai continuar? Até entendermos tudo? O meu ponto é: muitos daqueles que não são agraciados pela fé ainda consideram isto tudo como um thriller e estão ávidos por descobrir qual é a trama e, especialmente, conhecer o seu autor. Antes assim do que acreditar que tudo é obra do acaso. Um grande abraço. Oscar

  2. Usamos a religião para explicar o inexplicável. Isso foi feito durante a Idade média e usado para o domínio sobre os mais fracos. O eclipse era um sinal dos deuses prevendo catástrofes porque os homens estavam pecando ou não seguindo os preceitos da “Igreja “local.
    A curiosidade humana em querer saber o futuro, para isso procurando tarólogos, gurus, etc, acaba atribuindo à religião tudo aquilo que se espera ou seja eticamente correto. E a busca pela felicidade coloca nas mãos da religião todos os obstáculos e conquistas para que o homem enfim, respeitando os princípios ou desculpas, atinja a “tal felicidade”.

    • Guiga, Acho que você tocou num ponto crucial. Usamos essa nossa capacidade de pensar no sobrenatural como uma arma sem controle, atirando a esmo. Será que um dia vamos ter controle sobre ela? Abs. Caco

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