Entre dois mundos

O primeiro sinal de que estamos ficando velhos é falar sobre a velhice. Definitivamente, estou ficando velho. Considero essa fase da vida – que, na verdade, não sei quando se inicia – um conflito de sentimentos, alguns positivos e outros negativos. Os positivos dão-nos motivação para enfrentar o que está por vir e os negativos têm efeito contrário.

Não tenho dúvida de que o mais forte dos sentimentos do idoso é o da proximidade da morte que, devido à sua importância, será deixado para o final do texto.

Inicio pelo sentimento de percepção de nossas limitações físicas que a idade nos traz. Ele nos faz lembrar de tudo o que não mais somos capazes de fazer, pelo menos não tão bem como fazíamos antes. Esportes radicais, festas frequentes, longas viagens são extravagâncias que não mais nos são permitidas nessa fase da vida. Ponto negativo. Essas atividades têm que ser substituídas por outras menos exigentes fisicamente como leitura, música, brincar com os netos, caminhadas e longos bate-papos, entre outras. Ponto positivo.

Outro sentimento é o do dever cumprido. Ele é muito recompensador para aquele que foi um bom profissional, um bom cidadão, um bom amigo, um bom marido e um bom pai. Nessa hora o que conta é o prazer de relembrar suas realizações ou passagens com aqueles que você incluiu em seu mundo. Ponto positivo.

Em contraposição há a frustração de constatar que deixamos nossa missão incompleta. Fomos convidados para uma experiência extraordinária, que é a vida, e não soubemos usufruir tudo que ela oferecia. Como aproveitamos mal os momentos com as pessoas que amamos! Quantos amigos deixamos de fazer! Quantos lugares deixamos de conhecer! Como ficamos ignorantes diante de tantas coisas inventadas ou descobertas pelo homem! Como fomos omissos em ajudar a construir um mundo melhor! Ponto negativo. Todavia podemos sempre perguntar: isso ainda pode ser reparado? A ousadia de fazer essa pergunta, e possivelmente reparar erros passados, é um enorme ponto positivo.

O sentimento de ter aprendido muito com a vida é tão explícito que sempre imaginamos: “Ah como seria bom se eu tivesse a cabeça de hoje e o corpo de antigamente!” Mas será que essas duas coisas se combinariam? Penso que não, porque o corpo seria destituído dos sonhos que foram o combustível para a vida que estava para ser vivida. De qualquer modo, a percepção de que se aprendeu muito com a vida é uma sensação boa que nos acompanha nessa fase da vida.

Finalmente, temos que nos preparar para o sentimento mais forte que é o da proximidade da morte. Ele pode se manifestar mais cedo ou mais tarde, mas certamente virá. Imagino que não seja uma coisa necessariamente ruim. Trará medo, com certeza, pois o medo da morte é elemento chave para a preservação da espécie. Mas também provocará um misto de expectativa e curiosidade sobre o que virá.

Ateus e crentes devem ter sentimentos muito diferentes nesta hora. Para os primeiros, imagino que o clima seja parecido com o de fim de festa. É a espera que as luzes se apaguem e tudo volte a ser como antes, ou seja, um imenso nada, do qual não se terá a menor percepção. Terminada a festa, não esperam encontrar ninguém com quem comentar sobre ela. Nem mesmo eles próprios se lembrarão de alguma coisa. Assim, seu único desejo é que deixem uma imagem positiva de sua existência. Para esses, portanto, não consigo imaginar outra coisa que a proximidade da morte possa provocar em suas mentes.

Para os que acreditam em algo após a morte, imagino que os sentimentos possam ser variados. Os mais religiosos têm a expectativa do encontro com o seu Deus e da prestação de contas final, para a qual se prepararam durante toda a existência. A visão do paraíso, onde estarão juntos com os seus entes queridos, é o que lhes dá força nos últimos momentos de vida. Os que acreditam em reencarnação, religiosos ou não, esperam um novo renascer, certos de que constituirão um novo ser mais evoluído do que aquele que se extingue, como recompensa pela vida correta que tiveram.

Para outros, não tão firmes em suas crenças, a expectativa é a de simplesmente descobrir a verdade, o que não é pouco. A verdade procurada tem muitos aspectos. O mais filosófico deles diz respeito ao propósito da vida que se encerra ou, dito de outra maneira, ao entendimento do plano do Criador. Por que vivemos? Por que sofremos? Os que estão ligados às ciências, porém, têm imensa curiosidade em descobrir a verdade sobre as leis que regem a natureza, que descrevem e explicam todos os fenômenos que aqui acontecem. Afinal de contas, eles dedicaram toda a sua vida nessa busca. Eles sabem que todos os seus modelos para descrever a natureza, por mais sofisticados que sejam, não passam de aproximações da realidade. Mas, afinal, existem tais leis que foram impostas pelo Criador? Se existem, elas poderiam ser descobertas pelo homem, com as ferramentas terrenas?

Para esses, a morte significa obter as respostas para essas perguntas. Que oportunidade rara! Num piscar de olhos toda a verdade estará diante deles e eles dirão estupefatos: “Então era isso? Tão simples e sequer estávamos perto de descobrir a verdade.” Quem não estaria ansioso para “viver” um momento desses? A morte seria, então, uma benção.

Enfim, a velhice pode provocar um turbilhão de emoções, afetando diferentemente cada pessoa. Todos nós vamos experimentá-las; só não sabemos quais as que aflorarão com mais força. O que temos certeza, no entanto, é que uma delas nos acompanhará até o fim: a de que sempre nos sentiremos como crianças, por mais que os anos queiram dizer o contrário.

Anúncios

Um comentário sobre “Entre dois mundos

  1. Dias atrás, meu amigo Nilson Machado enviou-me por e-mail o comentário que reproduzo a seguir: “… acho que a questão do envelhecimeno pode ser posta de outra maneira. Há velhos com 18 anos e jovens com 95. E a aposentadoria me parece um conceito ultrapassado. Permanecemos jovens
    enquanto temos projetos e os alimentamos, enquanto o futuro nos
    interessa tanto quanto o passado. Quando o passado passa a ser mais
    importante, a velhice chegou. A idade importa pouco. Uma dorzinha
    aqui, outra ali, tudo normal. Catástrofes na saúde também
    independem da idade. É isso. Grande abraço pra você.
    Nílson”

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s