Guerra dos sexos

         A natureza não é justa nem injusta; ela simplesmente é indiferente ao destino das criaturas que aqui vivem sob as suas leis. Essas leis às vezes são muito cruéis podendo levar até à extinção de espécies, o que não é muito raro na história dos seres vivos, freqüentemente ameaçados por terremotos, furacões, meteoros. Não obstante, a natureza também gera os suprimentos para a nossa subsistência e os insumos para o nosso desenvolvimento.

         Curiosas são as ferramentas com que ela dotou as diferentes espécies e as regras que definem os seus papeis como presas e predadores. Uns animais se alimentam de outros e servem de alimentos para outros e assim por diante. Dizem que Darwin perdeu sua fé ao constatar que uma vespa da espécie “Ichneumonidae” se alimenta do corpo vivo de certas lagartas. Além de depositar seus ovos na lagarta para que suas larvas se alimentem do corpo da infeliz, ela injeta seu veneno paralisante na vítima, sem matá-la para que a sua carne se mantenha fresca, e a come viva sem que a lagarta consiga se mexer. Não se sabe se o veneno é anestésico ou somente paralisante, o que seria por demais cruel com a bichinha. Darwin teria dito: “Eu não consigo me convencer de que um Deus onipotente e benevolente teria criado a Ichneumonidae com a expressa intenção de fazê-la alimentar-se do corpo vivo das lagartas.”

         Fé à parte, o que observamos na natureza é que parece mesmo não haver um propósito de fazer justiça às diferentes espécies e nem mesmo entre os sexos de uma mesma espécie, que é o que nos interessa neste momento. A divisão de tarefas (ou direitos e deveres) entre machos e fêmeas é muito diversificada de uma espécie para outra, ora privilegiando o sexo masculino, ora o feminino, mas quase nunca sendo equilibrada. O leão que descansa enquanto a leoa caça, o zangão que tem direito a uma única transa antes de morrer, as formigas operárias que trabalham incansavelmente para a rainha do formigueiro são alguns entre muitos exemplos de tarefas injustamente distribuídas.

         Quando se fala da espécie humana, a situação não é muito diferente. Na maioria das culturas, ao longo de quase toda a existência humana, cabiam às mulheres as tarefas de cuidar da casa, das crianças e dos idosos, enquanto que aos homens cabiam as tarefas de trazer o alimento para casa e proteger o clã. Até aí tudo bem. Todavia as atividades de entretenimento, como jogos e competições, eram restritas ao homem e até mesmo era tolerado a ele possuir mais de uma parceira sexual. Em algumas sociedades mais radicais a mulher tinha ou ainda tem total falta de liberdade quer para estudar ou trabalhar e até mesmo lhe é negada a liberdade de ir e vir.

         Felizmente a natureza equipou a raça humana com uma ferramenta chamada consciência que está fadada a fazer a diferença em relação às outras espécies (ainda não fez totalmente, num sentido positivo, mas vamos ser otimistas). A consciência nos permite tomar ciência de quem somos e do que fazemos e questionar se o modo como o fazemos está correto. Pressionada de início pelos movimentos feministas, a sociedade tem passado por transformações que não mais são provocadas por representantes do sexo feminino, mas por instituições que reconhecem os direitos das mulheres e procuram formas de fazê-los valer.

         A tarefa de mudar comportamentos não é simples quando eles estão enraizados nas culturas que perduram por gerações e gerações, mas a ferramenta de que dispomos – a consciência – é de tal forma poderosa que as transformações ocorrerão em frações de segundo, na escala de tempo que conta a história dos seres vivos. Evidentemente, o que foi dito sobre sexo pode ser estendido também às outras formas de divisão da sociedade, como raça, religião e outras, que mais cedo ou mais tarde serão adequadamente tratadas pela força da consciência fazendo a justiça, a igualdade e a liberdade prevalecerem.

         É curioso observar que a natureza, tão indiferente às condições em que vivem as suas criaturas na Terra, tenha criado a consciência nos seres humanos e que esta tenha se revelado uma forma de eliminar as injustiças causadas pela própria natureza. Uma simples obra do acaso? No mínimo um assunto para pensar. Mais ainda, as atrocidades sofridas pelas lagartas talvez nem possam ser assim consideradas, pois seus diminutos cérebros podem nem mesmo saber o que está acontecendo ao seu redor, enquanto que com o ser humano é diferente e este está equipado para se defender. Se Darwin tivesse pensado um pouco nisso talvez ele não tivesse perdido a sua fé. Pena que o século XIX não dava muitos indícios de que o ser humano tinha condições de reparar alguns erros cometidos pela natureza.

Anúncios

3 comentários sobre “Guerra dos sexos

  1. Adorei o texto. As vezes acho os homens com “com-ciência” muito piores que os animais que muitas vezes agem apenas por instinto.
    Para o animal, todo o tempo é usado para a preservação da vida. Para isso pode ser preciso o uso da força como instinto de sobrevivência básica. Já para o homem , que usa sua consciência, muitas vezes usa seu instinto de sobrevivência para”derrubar” o oponente sem que o mesmo seja usado para sua necessidade basica.
    Vale para o homem o poder de usar sua consciência para estabelecer regras básicas para o convívio social e assim preservar a nossa espécie.

  2. Dias atrás, meus amigos Aristides e Emília Augusta enviaram-me por e-mail os seguintes comentários sobre este texto:
    “Gostei do seu texto.Este assunto sempre me interessa.
    Você fala de consciência como se dependesse de uma questão de vontade para fazê-la operar ( ou não entendi bem?). No meu ponto de vista, é algo que vai além do simples querer.Pensadores como Marx e Freud mostraram isto. Para o primeiro, como estamos presos a uma “consciência” fabricada por uma classe que domina ( a ideologia), e para Freud,como além da consciência, um inconsciente que nos move( não sou senhor em minha própria casa).
    Você fala de Darwin e transpõe parâmetros do mundo animal para “raça humana”(darwinismo social).Seguindo estes mesmos pensadores já citados,há um abismo, uma impossibilidade para este paralelo,pois o homem, diferente dos animais, não tem natureza ( para Marx tem história) e não tem instinto ( para Freud tem pulsão, conceito limite entre o psíquico e o somático). O homem inventa seu comportamento social. Assim sendo, todos os sentimentos humanos variam de acordo com os movimentos sócio econômicos da História. Já ,para o pensamento conservador, contrariando estes autores, tudo pode ser explicado pela biologia,pela genética,pela hereditariedade, pelos genes.Gene da homossexualidade, gene da obesidade,da inteligência, da agressividade, das doenças físicas e mentais, ou seja,como no mundo animal, tudo já está pré-determinado, ninguém se responsabiliza, a culpa é de Deus ou da natureza e dá-lhe medicamento! A indústria farmacêutica agradece!Assim ,se fundamentam os preconceitos, se justificam as desigualdades, se autorizam os fundamentalismos e a tal consciência vai produzindo sociedades cada vez mais injustas , vai destruindo a natureza,caminhando a passos largos para um mundo perverso, pautado por uma lógica insana do consumo desenfreado. Roberto Kurz, pensador alemão da atualidade, escreve “ O colapso da modernidade”. Elizabeth Badinter, filósofa e feminista francesa,em seu livro “Um amor conquistado- o mito do amor materno”, fala como foi interessante para as sociedades patriarcais, machista e de classes capturar a mulher e aprisioná-la neste lugar de sentimento tão “sagrado”.Outra autora, Evelyn Reed, em seu trabalho que começa com o seu título- “Sexo contra sexo ou classe contra classe”?demonstra como a guerra dos sexos é fruto de uma sociedade de opressão e desigualdades além dos gêneros masculino e feminino, e ao enfatizá-la encobre questões mais importantes.
    Emilia Augusta”

    Respondi, também por e-mail, com as seguintes palavras:
    Caros Emília Augusta e Aristides,
    Obrigado pelo seu interesse nos assuntos do blog. Sempre que recebo um comentário de especialista coloco-me na defensiva, pois não sou expert nos temas sobre os quais escrevo, como mencionei na introdução do blog. Penso logo: ih, acho que falei bobagem! Neste caso, acho que não transmiti exatamente o que eu queria dizer. Quando falo de consciência, de modo algum penso que fazê-la operar é uma simples questão de vontade. Em meu artigo sobre livre arbítrio procurei expor minhas dúvidas sobre se ele realmente existe e tento mostrar que esse assunto é muito complexo e não há consenso sobre a resposta correta. Logo, eu não poderia achar que a consciência pode ser operada por simples vontade. Entendo a disputa entre biólogos evolucionistas e psicólogos (desculpe-me se estou usando os nomes incorretamente) mas não quero me meter nela. Entendo que, seja por força da genética ou por força de aspectos culturais, o ser humano é dotado de uma capacidade que o diferencia dos animais, a qual chamo aqui de consciência e que entendo ser a capacidade de pensar em nossa existência e fazer perguntas sobre isto. Essa mesma consciência que nos levou a produzir os males que você cita, produziu, também posturas como a sua e a minha que se dispõem a discutir este assunto, constatar o que está errado e dar sugestões para melhorar. É a essa capacidade que me refiro e que os animais não possuem. Se a justiça e o certo vão prevalecer ninguém sabe, mas que a natureza nos deu uma arma para lutar a favor deles, não tenho dúvidas. Era isto que eu queria transmitir com o meu texto.
    Um grande abraço.
    Oscar

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s