Déjà vu

 

Você teve alguma vez a sensação de já ter vivido antes uma dada situação? A sensação de que aquele momento já ocorrera em sua vida? Aposto que sim! Tente se lembrar desses momentos e verá que são momentos especiais, seja por se tratar de instantes de intensa alegria, ou de intenso medo, ou de grande suspense. Enfim, são sempre situações que gostaríamos de experimentar como se estivéssemos assistindo a um filme. E, acredite, houve um tempo, muito distante, em que era exatamente assim.

Naquele tempo, o homem era muito diferente, mais cerebral. Suas atividades lidavam muito mais com a mente do que com as suas outras habilidades. Embora ele fosse mortal, tinha a capacidade de se tornar imortal pela simples força de seu pensamento. Por um simples desejo podia se transportar para uma época agradável de sua vida e revivê-la como quem escolhe uma música num disco para ouvir. Todas as cenas de sua vida estavam ali à sua disposição para que ele as vivesse de novo, quantas vezes quisesse. Bastava se concentrar naquela de sua preferência no momento e, pronto, lá estava ele vivendo novamente aquela situação, como num sonho. Ele podia, se quisesse, ficar revivendo eternamente aquele momento escolhido, mas, evidentemente, havia outros momentos que ele gostaria de reviver e, assim, ficava saltando de uma época para outra, no passado ou no futuro, desfrutando seus momentos preferidos.

Num certo sentido, era de fato imortal, pois podia voltar a qualquer instante de sua vida quando quisesse, adiando a sua morte. Nessas idas e vindas ia evitando aqueles momentos desagradáveis que não quisesse reviver. Era como se sua vida estivesse inteiramente gravada num disco e ele tivesse a capacidade de escolher para ouvir a parte do disco que lhe conviesse. Não havia a noção de tempo como a conhecemos hoje. Toda a história de uma pessoa estava “gravada” à disposição dela própria para ser revivida, no todo ou em partes, de acordo com a sua vontade. O passar do tempo só era sentido quando a pessoa estava revivendo, sem interrupção, uma determinada fase de sua vida. Esse passar do tempo só era interrompido quando a pessoa, conscientemente, se transportava para outra fase de sua vida, no passado ou no futuro.

A viagem no tempo era, portanto, uma coisa corriqueira, que dependia de uma simples vontade. Todavia, essa viagem estava restrita ao intervalo de tempo delimitado pela existência de cada pessoa. Cada um podia viajar livremente pelo tempo entre o seu nascimento e a sua morte, mas não para fora desses extremos, simplesmente porque ele não existia fora deles. Esses extremos também tinham uma peculiaridade. A pessoa podia se transportar para um passado tão próximo do seu nascimento quanto sua memória era capaz de vislumbrá-lo (nada muito diferente de hoje). O incrível era que isso também valia para o futuro: ela podia se transportar para um futuro tão próximo da sua morte quanto a sua “memória” era capaz de levá-lo. Passado e futuro, neste aspecto, eram perfeitamente simétricos. Assim, a capacidade de reviver um passado ou futuro mais ou menos longínquo variava de uma pessoa para outra. Ninguém, contudo, era capaz de transportar-se no tempo diretamente para o instante de seu nascimento ou de sua morte, assim como nós, hoje, não nos lembramos do instante em que nascemos. Podia-se chegar tão perto quanto imaginável, mas não exatamente no exato instante daqueles eventos. Era como se ao ouvinte não fosse dado o poder de ligar ou desligar o toca-disco. Uma vez ligado, ele podia escolher qualquer música, mas não desligá-lo. Isto só aconteceria, de uma forma natural, quando ele deixasse os últimos acordes se desenrolarem até o seu final. Para se entender isso, entretanto, é necessário que se entendam outros aspectos daquele mundo distante.

Ao reviver uma certa época, a pessoa não tinha qualquer capacidade de alterar o rumo dos acontecimentos; tudo se passava como se ela estivesse vivendo aqueles momentos pela primeira vez. Como no disco, uma vez escolhida a faixa, esta se desenrolava sempre para frente, reproduzindo os acordes ali gravados, até que o ouvinte a interrompesse e passasse para uma outra faixa, à frente ou atrás. Ao reviver cada época, portanto, tudo lhe era novo e não previsível. Suas decisões seriam tomadas exatamente da mesma forma como as tomara nas inúmeras outras vezes que passara pela mesma situação. O rumo dos acontecimentos não se alterava e tudo seguia como já estava “gravado no disco” da sua existência. A única coisa que se podia fazer contra o inexorável desenrolar dos acontecimentos era interrompê-lo e passar para uma outra época onde tudo também se desenrolaria de acordo com um plano já definido.

A interrupção do tempo era feita pela capacidade mental das pessoas de se desvincular da realidade presente e se transportar para uma outra época de sua escolha. Essa capacidade equivalia a tirar a pessoa de dentro da música que estava sendo tocada e da qual ela era parte, para dar-lhe o papel do ouvinte com o poder de escolher a música que lhe conviesse. Nesse estado transcendental de ouvinte, ele não tinha idade e tudo sabia, isto é, tendo ouvido aquele disco inúmeras vezes, sabia quais faixas o agradavam mais e podia repeti-las quando quisesse. Bastava, então, escolher uma outra época de sua vida, sobre a qual sabia de cor a seqüência dos acontecimentos, e se transportar para lá, novamente como o personagem principal da história.

E quanto à morte? Supunha-se que uma vez passando pela experiência da morte não seria mais possível retornar. A ausência de qualquer lembrança sobre essa experiência era uma forte evidência de que ninguém havia retornado dela. O que poderia, então, acontecer com uma pessoa que passasse pela experiência da morte? O que existiria fora dos extremos da sua existência?

Essa dúvida não impedia que as pessoas continuassem a viver felizes, repassando uma seleção dos seus melhores momentos. Visitavam o futuro e voltavam ao passado um número interminável de vezes, sentindo a segurança de que o seu destino dependia delas próprias. Viviam eternamente o intervalo de tempo entre o nascimento e a morte. Não havia nada que as preocupasse, apenas aquela curiosidade de saber o que existiria fora dos limites da sua existência. Mas, numa escala de tempo infinita, essa curiosidade foi aumentando.

E aumentou a tal ponto que as pessoas, uma a uma, começaram a esperar pelo grande momento, ao invés de evitá-lo. A morte tornou-se, então, uma obsessão para aqueles homens poderosos, donos de seu destino. Chega de viagens no tempo, chega de idas e vindas, passando sempre pelos mesmos momentos felizes. Havia, agora, uma nova motivação para viver.

E foi assim que o homem deixou de usar a sua capacidade de transportar-se no tempo. Ele simplesmente preferiu esperar o tempo passar naturalmente, até chegar o momento supremo, tão esperado, de sua morte. Foi assim com os seus descendentes e com os descendentes de seus descendentes, e a capacidade de transportar-se no tempo foi aos poucos se perdendo, pelo desuso, de geração para geração, até os nossos dias. Hoje, essa capacidade está completamente desaparecida e não poderíamos sequer supor que um dia ela existira se não fossem os raros momentos em nossas vidas nos quais temos a sensação de estar vivendo um acontecimento já vivido. Uma capacidade admirável que se transformou em mero déjà vu.

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