Guerra dos mundos

        A quantidade de histórias sobre encontros com alienígenas mostra como é grande a nossa curiosidade sobre este assunto. As pessoas têm diferentes sentimentos diante da possibilidade de um encontro com seres de outro planeta. Esses sentimentos vão desde o medo até a procura obsessiva por um encontro real, passando por uma expectativa curiosa, da maior parte das pessoas, em se ver frente a frente com os homenzinhos verdes. Essa maioria procura imaginar como seria um encontro dessa natureza, entre seres tão diferentes em todos os aspectos imagináveis. Poderíamos interagir pacificamente com eles, trocando informações e ajudando-nos mutuamente? Como seria a comunicação? Eles seriam muito mais avançados do que nós?

         O inusitado dessa situação é o fato de não termos tido nenhuma experiência de convivência com outros seres pensantes como nós, com DNA tão diferente. Isso nos deixa curiosos em saber como seria uma experiência dessas. Mas o fato é que nossos antepassados já a tiveram! Não digo que tivessem se encontrado com seres extraterrestres, mas sim que conviveram com outros seres pensantes, diferentes de nós o suficiente para constituir outra espécie. Estou falando da convivência do Homo sapiens com o Homo neanderthalensis ou, simplesmente, Homem de Neanderthal, há dezenas de milhares de anos.

         Hoje se sabe que várias espécies de hominídeos conviveram por longos períodos dividindo e lutando pelas mesmas regiões. No entanto, vamos nos restringir a essas duas espécies do gênero Homo, por serem as mais recentes e, evidentemente, porque uma delas tem tudo a ver conosco. O Homem de Neanderthal surgiu cerca de 200 mil anos atrás e desapareceu há cerca de 30 mil anos, tendo habitado a Europa e a Ásia Ocidental. Ele tinha grande habilidade em construir ferramentas de pedras para caçar, segundo provam os achados arqueológicos de sua época. O Homo sapiens surgiu na África entre 150 mil e 200 mil anos atrás e sua chegada à Europa se deu há 40 mil anos. Portanto, essas duas espécies coabitaram a Terra por um longo período de tempo, muito embora pudessem estar separadas geograficamente em boa parte desse tempo. Todavia, há fortes indícios de que eles se encontraram e conviveram por um período razoável de tempo até que o Homem de Neanderthal desaparecesse por completo.

         As teorias mais aceitas indicam que eles conviveram por cerca de 60 mil anos na Ásia Ocidental, na região chamada de Levante, e cerca de 10 mil anos na Europa. Especula-se que a deterioração dessa convivência deu-se quando o Homo sapiens desenvolveu a linguagem e outras habilidades para lidar com símbolos e conceitos abstratos. Enquanto as diferenças entre ambas as espécies eram basicamente físicas – na maior parte do tempo em que coabitaram o Levante-, não houve predominância de nenhuma, mas, quando o Homo sapiens deu um salto intelectual, a competição ficou desigual e levou à extinção do Homem de Neanderthal.

         Assim, há cerca de 30 mil anos o Homo sapiens reina absoluto na Terra e não é de estranhar, decorrido tanto tempo, que tenhamos dificuldades de imaginar como seria a convivência com outro ser inteligente.

         Para resumir esta história cito as palavras dos autores de um artigo da revista Scientific American (janeiro, 2000), intitulado “Once we were not alone” (tradução livre: Houve um tempo em que não estávamos sozinhos), de onde tirei a maior parte das informações acima:

“… sabemos que a criatura dotada de habilidades para lidar com símbolos é um formidável competidor – e não necessariamente um competidor inteiramente racional, como descobriram os outros seres vivos, incluindo o Homem de Neanderthal, pagando por isso um alto preço.”

         Esta curta história foi contada para lembrar, primeiro, que já convivemos com outra espécie inteligente – ou pelo menos com habilidades que as diferencia dos outros animais – e, segundo, como pode ser complicada a coexistência de seres tão diferentes.

         Sabemos, também, que nesses 30 mil anos de reinado absoluto do Homo sapiens as coisas não andaram tão bem. Apesar de toda evolução, o homem ainda não aprendeu a ter uma convivência pacífica com os seus semelhantes e a lidar de modo adequado com os animais. Aprendemos muito nestes tempos modernos, mas ainda não erradicamos os nossos preconceitos e intolerâncias com raças, religiões e culturas diferentes das nossas. Constituímos, ainda, a principal ameaça à extinção de muitas espécies de seres vivos. Tudo isto valida ainda mais a citação acima de que somos um competidor forte mas não inteiramente racional.

         Mas voltemos ao assunto do início. O que esperar, então, de um possível encontro com alienígenas? Em primeiro lugar, devemos admitir que, no horizonte de tempo da nossa geração e das próximas que se seguirão, esse encontro só poderia acontecer aqui na Terra, porque partindo do atual estágio tecnológico não temos qualquer perspectiva de deixar o nosso planeta e visitar um outro planeta habitável num horizonte de séculos ou milênios a frente. Desse modo o encontro envolveria seres muito evoluídos (eles) – visto que disporiam da tecnologia para trazê-los aqui – com seres pouco evoluídos (nós). Nós estaríamos, então, na posição do Homem de Neanderthal, torcendo para que eles não fizessem o papel do Homo sapiens.

         Mas qual a chance de que a história seja diferente? Quase nenhuma. A diferença de nível entre as duas civilizações seria provavelmente muito maior do que a que existiu na nossa breve história, o que tornaria a interação ainda mais problemática. Infelizmente, dominação, escravidão e até extermínio são os cenários mais prováveis desse encontro, a menos que eles tenham desenvolvido uma racionalidade que não conseguimos ter durante esta nossa breve existência.

         De qualquer modo, acho que a perspectiva de um encontro desses intriga a maioria das pessoas, inclusive aquelas que compartilham o quadro pessimista acima.

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