Livre arbítrio, quem não tem?

         O embate entre religião e ciência tem acontecido numa arena que está em constante mutação. O campo da ciência compreende tudo aquilo que pode ser explicado pelas teorias científicas, ficando para a religião aquilo que só tem explicação pela intervenção divina. A fronteira que separa essas áreas tem se movido, espacial e temporalmente, à medida que a ciência avança em seus propósitos de explicar o universo. Algumas descobertas científicas dão bem a idéia do que eu estou falando. Uma delas foi a constatação de que a Terra não é o centro do universo; a outra foi a descoberta que o homem não foi criado como ele é, mas evoluiu de outros seres vivos até chegar à forma atual.

         Quando a teoria de Nicolau Copérnico foi aceita, a religião (ou religiões) foi impelida a aceitar que a Terra, e com ela o homem, não estava no centro do universo e, conseqüentemente, aceitar que o universo pode não ter sido criado em torno do homem. De alguma forma, isto fez com que se entendesse que a obra de Deus era muito mais extensa do que se supunha e que o homem era apenas uma parte dela. O campo da ciência expandiu-se espacialmente de forma incontestável.

         Quando Darwin lançou a sua teoria da evolução das espécies, ficou constatado (menos para os criacionistas, é claro) que todas as espécies existentes hoje têm um ancestral comum que surgiu há bilhões de anos. Este fato empurrou a fronteira entre religião e ciência para muito antes dos meros milhares de anos que se supunha que a Terra tinha. Outros feitos científicos, como a determinação da idade da Terra e do universo, ajudaram a afastar essa fronteira para um passado muito longínquo.

         Essa parece ser uma constante: a ciência faz uma descoberta e a religião é obrigada a rever os seus dogmas, focalizando-os em épocas ou lugares mais distantes. Em qualquer caso, a fronteira se move.

         Em pelo menos um aspecto, essa fronteira parece estar muito próxima de nós, literalmente dentro de nossas cabeças. Falo da questão do livre arbítrio. O livre arbítrio, no sentido mais comum, significa a capacidade de escolher as próprias ações. A questão se o homem é ou não dotado de livre arbítrio é uma questão filosófica que vem sendo debatida há muito tempo. A wikipédia tem boas referências sobre este assunto.

         De uma forma simplista, a questão pode ser resumida da seguinte forma: o livre arbítrio, se de fato existir, é uma capacidade do homem que desafia as leis físicas pois, para tomar uma decisão soberana, a mente humana tem que se sobrepor (ou de alguma maneira dar início) às reações químicas e outros processos físicos que estão envolvidos no ato de fazer uma escolha; por outro lado, se ele não existir significa que nós tomamos as nossas decisões de forma automática, levados pela química interna de nossos cérebros.

         O processo segundo o qual a consciência se manifesta não está ainda completamente explicado pela ciência e enquanto isto não acontecer não teremos uma compreensão exata de como se manifesta o livre arbítrio, ou mesmo se ele realmente existe. O biólogo Edward Wilson, em seu livro “Consilience”, trata desta questão contribuindo para mostrar quão complexa ela é. Segundo ele, num processo de escolha, o complexo conjunto de atividades mentais preparatórias não percebidas pelo nosso estado consciente nos dá a ilusão do livre arbítrio (que, portanto, não existe de fato). Ele, porém, conclui dizendo:

“Não existe um determinismo simples do pensamento humano, pelo menos não no sentido em que as leis físicas descrevem o movimento de corpos e a composição atômica das moléculas. Dado que a mente individual não pode ser completamente conhecida e previsível, o eu interior pode seguir acreditando no seu próprio livre arbítrio. E isto é uma grata circunstância. A confiança no livre arbítrio é biologicamente adaptativa. Sem ela a mente, aprisionada pelo fatalismo, diminuiria e deterioraria. Portanto, em escala de tempo e espaço compatível com o funcionamento do organismo e para todos os efeitos operacionais que se aplicam ao conhecido eu interior, a mente possui o livre arbítrio.”

         Para a religião, a existência do livre arbítrio é fundamental pois revela o dedo de Deus, algo como o espírito se sobrepondo à matéria. Todavia, se a ciência vier a constatar que o livre arbítrio não existe, a fronteira terá que ser novamente movida de lugar, sem dizer que teríamos que rever todos os princípios que regem a vida em sociedade.

         Como se vê o assunto não é simples. Mas vamos supor que um dia a ciência venha a constatar que não temos livre arbítrio e vamos especular sobre o que aconteceria com a fronteira entre religião e ciência.

         A complexidade do funcionamento da mente humana está ligada ao fato de que todos os estímulos externos recebidos pelo indivíduo, captados pelos sentidos, somados aos internos, como fome, dor, lembranças etc, exercem papel fundamental no funcionamento do nosso sistema nervoso, produzindo os pensamentos que, em última análise, levam o indivíduo a tomar decisões. O equacionamento disso tudo seria uma tarefa hercúlea, senão impossível, como constatado pelo biólogo acima citado. Interessa-nos, entretanto, uma faceta deste problema: a constatação de que um estímulo externo, como uma palavra dita por alguém, seja um amigo ou inimigo, pode ter um papel central nas escolhas que um indivíduo possa fazer em sua vida.

         Sem o livre arbítrio, o comportamento do homem será ditado pelas circunstâncias que o cercam, fugindo totalmente de seu controle. Ele dependerá fundamentalmente da estrutura interna de seu cérebro e dos estímulos externos que a ele chegam através dos sentidos. Todas as decisões e escolhas do indivíduo estarão determinadas por esse estado de coisas e ele não terá outra coisa a fazer senão responder mecanicamente.

         Nesse contexto, os estímulos externos seriam a única forma de alterar o comportamento do indivíduo, para melhor ou pior, o que nos levaria a concluir quão fundamental seria o aconselhamento de outras pessoas para o indivíduo. Uns ajudando aos outros a seguir o caminho correto! A Bíblia está repleta de exortações a amar ao próximo como se estivesse nos enviando uma mensagem: ajudem ao próximo, pois sozinho ele não tem como achar o melhor caminho. A esse respeito também pode ser lembrada a frase de Jesus crucificado, dirigindo-se ao Pai, procurando o perdão para os seus detratores: “Pai, perdoai-os, pois eles não sabem o que fazem.” Seria este pedido uma alusão à falta do livre arbítrio?

         Um indivíduo funcionando como uma máquina precisaria de uma ação externa para realizar as tarefas certas, caso contrário continuaria a operar ao léu até parar de funcionar. A sociedade seria, então, um conjunto de máquinas que interagiriam para cumprir os seus propósitos. Poderíamos, então, pensar que a sociedade, com os indivíduos cooperando mutuamente, teria a capacidade de evoluir, como um ente único, escolhendo o melhor caminho para si. Isto, todavia, não seria verdade, pois a sociedade, constituída de indivíduos que não têm livre escolha, também não disporia dessa capacidade. e, portanto, não teria como fazer escolhas para cumprir os seus propósitos. Uma vez estabelecida, a sociedade simplesmente ficaria à deriva, ao sabor das circunstâncias, não fazendo outra coisa senão seguir as leis da Física. Certamente não é este o plano que gostaríamos para a nossa sociedade.

         Assim como para o indivíduo, que se valeria do aconselhamento de seu próximo, também para a sociedade seria necessário que houvesse estímulos externos para que ela pudesse encontrar o seu melhor caminho. Mas de onde poderiam vir tais estímulos?

         Entre os que crêem na existência de Deus há os deístas e os teístas. Para os primeiros, Deus criou o mundo e, a partir de então, não mais intervém nas atividades mundanas. Para os teístas, Deus criou o mundo e continua a se revelar para nós nas mais diversas maneiras. A visão deísta de Deus não contribui em nada para resolver o problema da sociedade sem livre arbítrio, uma vez que Deus não se manifesta às suas criaturas e, portanto, não pode ser a fonte dos estímulos externos de que a sociedade necessita nas situações em que se encontra à deriva. Todavia, a visão teísta de que Deus pode se manifestar às suas criaturas se encaixa perfeitamente no contexto, as suas manifestações podendo ser a fonte dos estímulos exteriores necessários. No Cristianismo, de acordo com a Bíblia, há várias ocasiões em que Deus manda o seu recado aos homens, mas o caso mais marcante é o do aparecimento de Cristo como homem que, com os seus ensinamentos, provê o mais forte de tais estímulos externos. Todos conhecem o resultado desse estímulo na transformação da sociedade desde então.

         Esta, enfim, seria uma possível resposta da religião para o caso de se constatar que o livre arbítrio não existe. Mas, de qualquer modo, seria ela uma explicação convincente? Acho que não. Por que Deus criaria seres sem livre arbítrio para depois ter que monitorá-los? Parece não haver sentido nisto, a menos que…

         A menos que se considere que o homem atual seja ainda uma obra inacabada e que num dado momento, muito longe no futuro, nossos descendentes venham a adquirir (não sei de que maneira) o atributo do livre arbítrio, assim como os nossos ancestrais adquiriram a consciência. Neste caso, a fronteira, que estava bem próxima de nós, teria se movido para uma época muito distante.

         Muito ainda está por ser elucidado sobre a mente humana e mais ainda sobre o nosso propósito na vida. A questão do livre arbítrio ainda vai ficar aberta por um bom tempo. Todavia, uma resposta que ninguém está querendo ouvir é a de que nós somos uma máquina pensante, incapaz de tomar as nossas próprias decisões e sem um propósito na vida.

Anúncios

2 comentários sobre “Livre arbítrio, quem não tem?

  1. Caro Oscar,

    Muito interessante seus textos. Duvido que você acredite mesmo que não temos qualquer projeto, que a vida é uma sinfonia do acaso. Qualquer hora conversamos sobre isso.
    Abraço fraterno

    Nílson

    PS. Em meu site, insiro um texto por semana, sempre de exatamente 1000 toques. Sabe como é, twitter é pouco, mas ninguém tem mais tempo de nada…

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s