Gênese

 

         Já escrevi um conto intitulado “Aonde foram todos?” que aborda o conceito de solipsismo e agora volto ao assunto porque considero o solipsismo uma idéia muito intrigante. O conceito metafísico de solipsismo é a idéia de que a própria mente é a única coisa que existe no mundo, tudo o resto sendo uma simples criação dela. Assim, enquanto escrevo este texto imagino que ninguém vai lê-lo pois só eu existo, ou melhor, só a minha mente. As pessoas que me cercam foram criadas pela minha imaginação, assim como minha casa e todos os objetos contidos nela. A obra Hamlet, da qual conheço somente uma sinopse, também é fruto da minha imaginação. Só vou completá-la no dia em que eu lê-la por inteiro.

          Mas aí você vai dizer: “Rá…rá! Isto não pode ser verdade pois a obra já existe e eu posso provar porque já a li inteira. Então somos no mínimo dois no mundo, eu e você.”

         Se você está lendo de fato este texto e fez a afirmação acima, então, talvez somente você exista e este texto esteja sendo criado por sua mente onipotente. Quem poderia esclarecer este imbróglio? Ninguém! Por mais que nos esforcemos, não há maneira de refutar a idéia do solipsismo. É uma idéia absurda e inverossímil, mas que não pode ser contestada por nenhum fato real (real?). Daí ser tão intrigante.

          O solipsismo me faz imortal e todo poderoso. Imortal porque a morte só existe para as pessoas na minha imaginação, assim acho, e todo poderoso porque fui capaz de criar uma história tão fascinante – a história do mundo – com detalhes de guerras, religiões, romances, catástrofes, tecnologias e tantas coisas que revelam em mim uma super inteligência. Todas as obras de arte, assim como todas as teorias científicas e toda a parafernália tecnológica são de minha criação, todas elas assinadas por pessoas que não existem. Não me importo com isso porque não preciso dos royalties e nem dos méritos. Afinal de contas, para quem eu poderia exibi-los?

         Já criei catástrofes naturais como tsunamis e terremotos, criei bandidos e assassinos cruéis, sem falar em ditadores e imperadores sanguinários, criei os terroristas implacáveis, o ódio e a vingança. Não tenho orgulho disso. No entanto, também criei heróis e mártires, criei os grandes estadistas e pacifistas, criei o amor e a solidariedade, criei a arte que encanta os nossos (?) espíritos e a tecnologia que nos dá prazer e conforto. Dessas coisas, sim, me lembro com alegria e orgulho.

          Apesar de tudo isso, não me sinto todo poderoso e isto se deve a uma razão que não sai do meu pensamento: não me lembro de ter criado todas essas coisas por vontade própria e no momento em que tinha vontade de fazê-lo. Tudo parece acontecer como num sonho, quando não temos a opção de escolher o tema, simplesmente sonhamos.

         O fato é que não tenho controle sobre o poder de minha mente. Ela é uma arma poderosa que atira a esmo. Mas tenho um plano para resolver isto, que comecei a colocar em prática há algum tempo. Estou procurando me convencer de que posso adquirir esse controle e para isso já escrevi muitos livros e os coloquei na lista dos mais vendidos, na seção de auto-ajuda. São livros que ensinam (na verdade me exercitam) a lidar com o poder da mente para resolver os problemas ligados a doenças, sucesso na carreira, no amor e muitas outras baboseiras (afinal eles precisam ser vendidos!).

          Com esse treinamento, espero adquirir controle total sobre esta minha mente poderosa e aí, sim, criar a minha obra mais fantástica: uma outra pessoa real para me fazer companhia, e depois outra e outra. Já tenho até a frase para quando isto for possível:

         Fiat lux!

         A partir de então não sentirei mais solidão.

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3 comentários sobre “Gênese

  1. Dias,
    Taí. Gostei.
    Como aqueles jogos de crianças com barbantes, que um passa para outro e, conforme cada um peg, inverte a figura e o desenho formado, posso pegar o seu solilóquio nos meus dedos, e, junto com a Psicanálise (invençao minha e do Freud), invertê-lo completamente.
    Fica o convite para fazer isso no almoço de sábado (ou em outro almoço, ou outro sábado).
    Abraço,
    Ary

    • Ary,
      Obrigado pelo comentário. Pena que não poderei ir ao almoço; portanto, ele não existirá de fato. Todavia construirei uma outra oportunidade para trocarmos solilóquios.
      Abs.
      Oscar Dias

  2. Como é bom ser autor de destinos ( nosso e dos outros). Nada melhor do que não ter de se preocupar com nenhum tipo de censura ou regras morais, onde não existem tabus nem conveniências.
    Ora podemos ser déspotas, ora subjugados conforme nosso bel prazer ( ou fase da lua?). Esse seria um prazer imenso, não fosse a necessidade inata do ser humano de agrupar-se e a partir daí começarem as regras para o bom convívio da sociedade. …. acho melhor despertar “que o dia já vem”…..
    Parabéns e sucesso pelo blog
    Beijo
    Guiga

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